A crise de honduras deixou cair muitas máscaras

Por Luiz Lyrio*

Em Honduras, tivemos uma experiência de resgate do velho costume de grupos conservadores de oposição derrubarem, via golpe de estado, presidentes eleitos pelo povo que ousam caminhar mais à esquerda. Tudo leva a crer que a aventura hondurenha serviria para que se tivesse uma noção de como a América Latina reagiria, em pleno século XXI, a um Golpe de Estado.

O sucesso do golpe de Honduras determinaria a viabilidade ou não de se usar este artifício para tirar do poder na América Latina outros mandatários indesejáveis. Se o golpe se concretizasse sem maiores percalços, o próximo a ser derrubado seria, sem sombra de dúvida, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Quem esteve por trás dos últimos acontecimentos (O principal suspeito é um grande país que domina o “know how” de derrubar governantes através de golpes) certamente avançaria “limpando a área” com novas quarteladas e moldando a América Latina à sua imagem e semelhança.

Felizmente, a ação do Brasil, apoiando o confuso, mas eleito pelo povo Manuel Zelaya, embolou o meio de campo e mostrou a inviabilidade de, em pleno século XXI, nações poderosas em conluio com elites locais inconformadas por estar alijadas do poder interferirem diretamente na vida dos povos da América Latina.

Enquanto o mundo civilizado, perplexo, tentava entender e digerir o golpe de Honduras, no Brasil, muitos golpistas enrustidos mostravam inadvertidamente suas garras. Pisando em ovos, mas sem nenhum pudor de esmagá-los, os que sonham hoje em ver o PT desalojado do poder por um Golpe de Estado fizeram das tripas coração para justificar a derrubada de Zelaya.
Através de uma campanha com o apoio de parte considerável de nossa grande imprensa, políticos de oposição repetiam o mesmo discurso, acusando Zelaya de estar transformando nossa embaixada em seu escritório político. E enquanto a mídia brasileira, convenientemente, “desglobalizava” o mundo e transformava o golpe hondurenho num fato isolado sem importância nem interesse para o resto do planeta, o sucessor de Paulo Francis na Rede Globo, seguindo os passos de seu inspirador, tentava nos convencer que existe “golpe bom” ou “golpe legal”, alegando, entre outras coisas, que o “santo golpe” de Honduras tinha sido dado com as bênçãos da Igreja Católica. Quem mais vivido ouviu os comentários de Jabor no Jornal da Globo certamente se lembrou da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” que mobilizou parte da classe média brasileira para apoiar o Golpe de 64.

Enquanto na grande imprensa só faltou alguém sugerir a mudar de nome de Honduras para “Honbrandas”, na internet, mestres e doutores tentaram nos convencer que o Golpe de Honduras foi “constitucional” já que a Constituição hondurenha determinava a perda de mandato e a cassação dos direitos políticos por dez anos de quem ousasse propor modificá-la. Certamente, esses doutores e mestres, em seu período de formação, devem ter faltado às aulas onde foi explicado o que é uma democracia. Se assim fosse, ou seja, se opressão via Constituição fosse coisa democrática, porque se crucificou tanto o totalitarismo dos países do leste europeu aliados da União Soviética? Toda a organização política desses países estava de acordo com suas Constituições.

Depois do golpe de Honduras, através de todos os meios de comunicação, lobos disfarçados de cordeiros tiraram suas máscaras e mostraram suas afiadas unhas. Seja qual for o desfecho dessa crise, devemos estar atentos. Mortos-vivos ameaçam emergir do inferno para nos assombrar.


*O embaixador da Paz Luiz Lyrio é um dos autores do livro Nós da Poesia que será lançado neste domingo, a partir do meio-dia no restaurante Cozinha de Minas, rua Gonçalves Dias, 45, bairro Funcionários - Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil).
Luiz Lyrio é autor do livro Nos idos de 68, à venda na Livraria do Café da Travessa (rua Pernambuco, 1286 - Savassi - Belo Horizonte - MG. Telefone: 55 +31 3223.8092.

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