domingo, 4 de março de 2012

Manifestações e shows marcam a comemoração do dia Internacional das Mulheres em Belo Horizonte


Este ano, o 8 de março será marcado por um grande ato em Belo Horizonte, unificando movimentos feministas e sociais da capital e do interior. Além das manifestações, a casa de shows Matriz receberá bandas como o trio feminino Cáustica, e a banda Cuatro, além de atrações como DJs e outras apresentações culturais que chamam a atenção para a produção cultural feita por mulheres. Com o nome de “As mulheres gostam”, os shows acontecerão no dia 08 de março, quinta- feira, às 22 horas no matriz como finalização das atividades que acontecerão durante o dia. O ato também será no dia 8, com concentração às 15h, na região central da cidade.

A Banda Cáustica irá lançar, no dia Internacional das Mulheres, o projeto “Musas e Medusas” que irá compor o site de patrocínio coletivo Movere.me. A banda aposta na mobilização que essa data representa para viabilizar seu projeto de gravação de CD de forma coletiva e também chamar a atenção para o som feito por mulheres. Além de suas incursões em outras linguagens artísticas, as integrantes da Cáustica têm trazido um pouco das experiências do Universo feminino para suas composições. As Cáusticas querem, com o “Musas e Medusas”, trazer uma outra perspectiva para as mulheres enquanto compositoras ou “criadoras” e, por isso, realizarão o lançamento do projeto no dia 08 de março. Para conhecer o projeto e colaborar com sua realização basta acessar o site: http://www.movere.me

Banda Cáustica

Musas e Medusas é o nome do trabalho atual da Banda Cáustica, trio feminino que aposta no lugar fronteiriço entre o Rock e outras vertentes musicais. O EP surgiu da pesquisa sonora e poética que procura trazer à tona angústias e experiências do universo feminino com a sutileza típica das mulheres Cáusticas. Sem medo das contradições, as Cáusticas corroem o jazz, o pop e o rock em busca de uma sonoridade única e de uma dissolução capaz de contagiar estarrecer o público ao mesmo tempo.

Com este EP com 4 músicas de divulgação, lançado em 2011, a Cáustica passou a figurar, em segundo lugar, na lista dos 10 mais tocados do portal Toque no Brasil ao lado de bandas como Macaco Bong e Black Drawing Chalks. Além disso, seu novo trabalho juntamente com o lançamento do seu vídeo clipe foi apresentado, também, no dia 03 de dezembro na virada cultural do mercado das borboletas juntando forças as comemorações de seis anos do Instituto Imersão Latina. E agora a banda lança seu projeto de gravação de pelo menos 10 músicas para o CD “Musas e Medusas”, no site de patrocínio coletivo Movere.me como forma de comemorar o dia internacional das mulheres.

A Cáustica é formada por Brenda Mars (bateria), Pâmilla Villas Boas (guitarra e voz) e Polly Alves (baixo). Com esta formação a Cáustica se apresentou em 2011 no Domina Music Festival em SP abrindo o show da banda Matanza e lançou seu EP no Festival Let's go em Belo Horizonte. A Cáustica aposta também na parceria com o Centro Cultural Nem Secos onde gravou seu primeiro trabalho e realizou apresentações e performances. Em novembro do mesmo ano tocou nas três noites Fora do Eixo de Porto Seguro, inaugurando uma nova rota de festivais de música independente. Em junho tocou no Money Festival, na Lapa, Rio de Janeiro e em abril, a Cáustica fez um pocket show durante a Feira Brasileira de Eventos, na Serraria Souza Pinto, despertando a atenção de produtores, público e outros artistas. Se apresentou também no Festival Riot Grrrl's Not Dead que tem a proposta de integrar ativismo feminista e música e no mais novo espaço para a cultura rock em BH, o Holandes Voador Rock Bar.

Em 2010, se apresentou na edição de Belo Horizonte do festival internacional Lady Fest, ao lado de bandas femininas como Dominatrix e na praça da Estação de Itabirito, no sábado de Carnaval, no Festival Grito Rock, o maior festival integrado da América Latina, realizado em 9 países: Brasil, Uruguai, Bolívia, Chile, Panama, Costa Rica, Honduras e El Salvador.


Ato Público

O ato também a ser realizado no dia 8 de março com concentração às 15h, na região central da cidade, irá tocar em três grandes temáticas: Violência, que engloba a violência de gênero, mas também a violência institucional contra os movimentos sociais, afetando especialmente as mulheres e suas famílias; a luta pela Educação Infantil, que exige a universalização das creches públicas e a valorização das educadoras. Com o lema "Nosso corpo nos pertence", as feministas irão abordar também a luta pela descriminalização e legalização do aborto, que é a quarta causa de morte feminina no Brasil.

Além disso, as manifestantes irão exigir dos governos municipal, estadual e federal políticas efetivas para acabar com a violência sexista e melhorar as condições de vida da mulher trabalhadora e sua família.

Compõem a organização do ato, em MG: Marcha Mundial de Mulheres, Movimento Mulheres em Luta/CSP-Conlutas, MST, Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Via Campesina, Associação Lésbica de Minas Gerais, Rede Feminista de Saúde, CUT-MG, Sind-Rede/BH, Quilombo Raça e Classe, Assembleia Nacional de Estudantes Livre, entre outras organizações.


Serviço:

BELO HORIZONTE
Show “Mulheres Gostam”
08 de março de 2012 às 22 horas
Local: Matriz – Rua Guajajaras, 1353
Ingressos antecipados a 10 reais

Ato público
08 de março de 2012
Concentração às 15 horas na região central

Banda Cáustica
caustica.com.br

Escute: http://www.myspace.com/bandacaustica
http://pamillaribeiro.tnb.art.br/
Discuta: http://musicadefronteira.blogspot.com/
www.facebook.com/bandacaustica

Contatos para entrevistas:
caustica@caustica.com.br
(31) 87492044 / (31) 32276869

sábado, 3 de março de 2012

Movimentos feministas de São Paulo convocam para ato e passeata do dia internacional de luta da Mullher


Organização:

AFROLGBT
ANEL
APEOESP – Secretaria da Mulher
Atravanco na Contramão – Letras USP
Articulação Mulher e Mídia
Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras de São Paulo
CA Benevides Paixão de Comunicação da PUC/SP
Campo Barricadas Abrem Caminhos
Campo Contraponto
Casa Cidinha Kopcak
Casa Viviane dos Santos
Católicas pelo direito de decidir
Centro Maria Mariá
CGTB
CIM - Centro informação Mulher
Ciranda de Comunicação
Círculo Palmarino
CMB - Confederação das Mulheres Brasileiras
CMP - Central de Movimentos Populares
CNAB
Coletivo DAR
Coletivo Dandara do Direito da USP
Coletivo de Mulheres Ana Montenegro
Coletivo Feminista 3 Rosas
Coletivo Feminista Lindóneia
Coletivo Feminista Rosa Lilás
Coletivo Feminista Yabá do Direito da PUC/SP
Coletivo LGBT 28 de junho
Coletivo LGBT CUT
Coletivo Juntas!
CONEN
CONSABS – Conselho das Associações Amigos de Bairro
Consulta Popular
CSP Conlutas
DCE Unicamp
Espaço Cultural Carlos Marighella
FACESP
Fêmea
Fepac
FETAM/SP – Federação dos Trabalhadores na Administração Pública Municipal do Estado de São Paulo
Fórum de Esquerda do Direito da USP
Fórum de Promotoras Legais Populares
FrentexSP
Fuzarca Feminista
Grupo Construção Coletiva
GT de Mulheres com Deficiência de São Paulo
Instituto Zequinha Barreto
Intersindical
Kiwi Cia de teatro
LBL - Liga Brasileira de Lésbicas
Levante Popular da Juventude
LTB
Mandato da Vereadora Juliana Cardoso
Mandato do Deputado Estadual Adriano Diogo
Mandato Deputado Estadual Carlos Giannazi
Mandato Deputado Federal Ivan Valente
Marcha Mundial das Mulheres
Marias Baderna Coletivo Feminista Letras USP
MDM - Movimento pelo Direito a Moradia
Movimento de Mulheres Olga Benário
Movimento Mulheres em Luta
Movimento Moradia Centro
Mulheres da Federação Nacional de Estudantes de Direito
Mulheres do PCB, PCdoB, PT, PSOL e PSTU
Nova Central
Observatório da Mulher
OMAQUESP
Rede Emancipa de Cursinhos Populares
Rede Feminismo e Economia
Rede Feminista de Sexualidade e Saúde
Rompendo Amarras
Secretaria de Mulheres do Sinpeem, UGT, CUT/SP, CUT, Força Sindical/SP, Força Sindical, CTB/SP, CTB
Setorial LGBT do PSOL e PT
Sindicap – Sindicato dos Servidores Públicos do Sistema Penitenciário de São Paulo
Sindicato da Borracha
Sindicato dos Psicólogos
Sindicato dos Químicos Unificados Campinas, Osasco, Vinhedo e Região
Sindiedificios
Sindsep – Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo
Sintratel
SOF - Sempreviva Organização Feminista
Tribunal Popular
UBES
UBM - União Brasileira de Mulheres
UJS
UNE
União de Mulheres de São Paulo,
União dos Movimentos de Moradia SP
União Popular de Mulheres de Campo Limpo e Adjacências
Universidade em Movimento USP
UPES

sexta-feira, 2 de março de 2012

A artista plástica Iara Abreu abre exposição Aquarelas na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa


A exposição de aquarelas produzidas por Iara Abreu, mostra um pouco de algumas séries,  dentre elas a série "pintando ao vivo" criada durante o projeto da Fragile Produções de curadoria do Luiz Otávio Brandão que reúne vários artistas no evento.  A imagem do convite é um Pintando ao vivo no "Palácio da Liberdade" em Belo Horizonte.

A abertura será na próxima quarta-feira, 07 de março, às 19 horas, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.


quinta-feira, 1 de março de 2012

Soberania alimentar, uma perspectiva feminista


Por Esther Vivas*

Os sistemas de produção e consumo de alimentos sempre foram socialmente organizados, mas suas formas tem variado historicamente. Nas últimas décadas, sob o impacto das políticas neoliberais, a lógica capitalista se impôs, cada vez mais, na forma na qual se produz e se distribui os alimentos (Bello, 2009)/1.

Neste artigo queremos analisar o impacto destas políticas agroindustriais sobre as mulheres e o papel chave que as mulheres camponesas desempenham, tanto nos países do Norte como do Sul, na produção e distribuição dos alimentos. Também analisaremos como uma proposta alternativa ao modelo agrícola dominante deve necessariamente incorporar uma perspectiva feminista, e como os movimentos sociais trabalham nesta direção, a favor da soberania alimentar, incluem esta perspectiva.

Camponesas e invisíveis

Nos países do Sul, as mulheres são as principais produtoras de comida, as encarregadas de trabalhar a terra, manter as sementes, coletar os frutos, conseguir água, cuidar do gado... Entre 60 e 80% da produção de alimentos nestes países recai sobre as mulheres, sendo uns 50% em nível mundial (FAO, 1996). Elas são as principais produtoras de cultivos básicos como o arroz, o trigo e o milho, que alimentam as populações mais empobrecidas do Sul global. Entretanto, apesar de seu papel chave na agricultura e na alimentação, elas são, juntamente com os meninos e meninas, as mais afetadas pela fome.

As mulheres camponesas se responsabilizaram, durante séculos, das tarefas domésticas, do cuidado com as pessoas, da alimentação de suas famílias, do cultivo para o auto-consumo e das trocas e comercialização de alguns excedentes de suas hortas, encarregando-se do trabalho reprodutivo, produtivo e comunitário, e ocupando uma esfera privada e invisível. Por outro lado, as principais transações econômicas agrícolas estiveram, tradicionalmente, nas mãos dos homens, nas feiras, com a compra e venda de animais, a comercialização de grandes quantidades de cereais... ocupando o a esfera pública camponesa.

Esta divisão de papéis, atribui às mulheres o cuidado da casa, da saúde, da educação de suas famílias e outorga aos homens o manejo "técnico" da terra e dos maquinários, e mantém intactos os papéis designados como masculinos e femininos, e que durante séculos, e ainda hoje, perduram em nossas sociedades (Oceransky Losana, 2006).

Os dados falam por si só. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) (1996), em muitos países da África as mulheres representam 70% da mão de obra no campo; se encarregam pelo suprimento de água; são responsáveis por 60-80% da produção dos alimentos para o consumo familiar e para venda; e realizam 100% do processamento dos alimentos, 80% das atividades de armazenamento e transporte da comida e 90% das atividades de preparação da terra. Estas cifras expõem a relevância do papel crucial que as mulheres africanas tem na produção agrícola em pequena escala e na manutenção e subsistência familiar.

No entanto, em muitas regiões do Sul global, na América Latina, África subsaariana e sul da Ásia, existe uma "feminização" do trabalho agrícola assalariado, especialmente em setores orientados para a exportação não tradicional (Fraser, 2009). Entre 1994 e 2000, segundo White e Leavy (2003), as mulheres ocuparam 83% dos novos postos de trabalho no setor da exportação agrícola não tradicional. Assim, muitas mulheres conseguiram pela primeira vez um posto de trabalho remunerado, com ganhos econômicos que lhes permitiram um maior poder de tomada de decisões e a possibilidade de participarem em organizações fora do âmbito familiar (Fraser, 2009). Entretanto esta dinâmica vem acompanhada de uma divisão marcada de gênero nos postos de trabalho: nas plantações as mulheres realizam as tarefas não qualificadas, como a seleção e a embalagem, enquanto os homens realizam a colheita e a plantação.

Esta incorporação da mulher no âmbito do trabalho remunerado implica em carga de trabalho dobrada para as mulheres, que continuam cuidando de seus familiares ao mesmo tempo que trabalham para obter recursos financeiros, na maioria das vezes em empregos precários. Elas contam com condições de trabalho piores que de seus companheiros, recebendo remuneração inferior pelas mesmas tarefas e tendo que trabalhar mais tempo para receber os mesmos salários. Na Índia, por exemplo, o salário médio das mulheres para o trabalho temporário na agricultura é 30% inferior ao dos homens (Banco Mundial, 2007). No Estado espanhol as mulheres cobram 30% a menos, e esta diferença pode chegar a 40% (Oceransky Losana, 2006).


Impacto das políticas neoliberais

A aplicação dos Programas de Ajuste Estrutural (PAE), nos anos 80 e 90, nos países do Sul por parte do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), para que estes pudessem pagar suas dívidas externas, agravou ainda mais as condições de vida da maior parte da população nestes países, e especialmente as mulheres.

As medidas de choque impostas pelos PAE consistiram em forçar que os governos do Sul retirassem as subvenções aos produtos de primeira necessidade como pão, arroz, leite, açúcar...; reduções drásticas no gasto público com educação, saúde, habitação e infra-estruturas foram impostas; a desvalorização forçada das moedas nacionais, com o objetivo de baratear produtos destinados à exportação, diminuíram a capacidade de compra da população local; as taxas de juros foram aumentadas com o objetivo de atrair capitais estrangeiros com alta remuneração, gerando uma espiral especulativa, etc. Em resumo, uma série de medidas que mergulharam na pobreza as populações destes países (Vivas, 2008).

As políticas de ajustes e as privatizações repercutiram de forma particular sobre as mulheres. Como assinalou Juana Ferrer, responsável pela Comissão Internacional de Gênero da Via Campesina: "Nos processos de privatização dos serviços públicos as mulheres foram as mais afetadas, principalmente nas áres como a saúde e a educação, visto que as mulheres historicamente se encarregam mais fortemente das responsabilidades familiares. A medida que não temos acesso aos recursos e aos serviços públicos, se torna mais difícil ter uma vida digna para as mulheres" (Via Campesina, 2006: 30).

O colapso do campo nos países do Sul e a intensificação da migração para as cidades provocou um processo de "descamponezação" (Bello, 2009), que em muitos países não tomou a forma de um movimento clássico campo-cidade, onde os ex-camponeses vão para as cidades trabalhar em fábricas como parte do processo de industrialização, mas se deu, como Davis (2006) denomina, um processo de "urbanização desconectada da industrialização", onde os ex-camponeses, empurrados para as cidades, passam a engrossar a periferia das grandes metrópoles (favelas), vivendo da economia informal e configurando o que o autor chama de "proletariado informal".

As mulheres são componentes essenciais dos fluxos migratórios, nacionais e internacionais, que provocam a desarticulação e o abandono das famílias, da terra e dos processos de produção, uma vez que aumentam a carga familiar e comunitária das mulheres que ficam no campo. Na Europa, Estados Unidos, Canadá... as mulheres migrantes acabam assumindo trabalhos que eram realizados pelas mulheres locais anos atrás, reproduzindo uma espiral de opressão, carga e invisibilização dos cuidados com a saúde, e externalizando os custos sociais e econômicos para as comunidades de origem das mulheres migrantes.

A incapacidade para resolver a crise atual dos serviços de saúde nos países ocidentais, fruto da incorporação massiva das mulheres no mercado de trabalho, o envelhecimento da população e a não resposta do Estado a estas necessidades, serve como álibi para a importação de milhões de
"cuidadoras" dos países do Sul global. Como observa Ezquerra (2010: 39): "[Esta] diáspora cumpre a função de invisibilizar a incompatibilidade existente entre o auge do sistema capitalista e a manutenção da vida no Centro, e aprofunda a crise dos serviços de saúde, entre outras crises, nos países do Sul (...) A 'rede internacional dos cuidados' se converte em um dramático círculo vicioso que garante a sobrevivência do sistema capitalista patriarcal".

Acesso à terra


O acesso à terra não é um direito garantido para muitas mulheres: em vários países do Sul as leis proíbem este direito e, naqueles países onde existe o acesso legal, as tradições e práticas as impedem. Como explica Fraser (2009: 34): "No Cambodia, por exemplo, mesmo não sendo ilegal que as mulheres possuam terra, a norma cultural dita que não a possuam, e apesar de que elas sejam as responsáveis pela produção agrícola, as mulheres não têm nenhum controle sobre a venda da terra ou a forma que esta se passa aos filhos".

Uma situação que se pode extrapolar para muitos outros países. Na Índia, como mostra Chukki Nanjundaswamy da organização camponesa Karnataka State Farmers Association/2 a situação das mulheres em relação ao acesso à terra e aos serviços de saúde é muito difícil: "Socialmente as camponesas indianas quase não têm direitos e são consideradas um adendo dos homens. As camponesas são as mais intocáveis dentro dos intocáveis, no sistema social de castas" (Via Campesina, 2006: 16).

Para as mulheres na África, o acesso à terra é ainda mais dramático devido ao aumento das mortes por causa da AIDS. Por um lado, as mulheres tem mais possibilidades de serem infectadas, e por outro, quando um homens de sua família morre, e este tem a titularidade da terra, as mulheres tem muitas dificuldades para assumir o controle. Em várias comunidades elas não têm o direito à herança, e por isso, perdem a propriedade da terra e outros bens ao ficarem viúvas (Jayme et al, 2006).

A terra é um ativo muito importante: permite a produção de alimentos, serve como investimento para o futuro e como aval, implica no acesso ao crédito, etc. As dificuldades das mulheres em possuírem terras é uma mostra a mais de como o sistema agrícola e patriarcal prejudica principalmente a elas. E quando elas tem a titularidade, se trata, na maioria das vezes, de terras com menor valor ou extensão.

Desta forma, as mulheres enfrentam mais dificuldades para conseguir créditos, serviços e insumos. Em nível mundial, se estima que as mulheres recebam somente 1% dos empréstimos agrícolas, e mesmo assim não está claro se o controle dos mesmos é exercido por seus companheiros ou familiares (Fraser, 2009).

Mas estas práticas não ocorrem somente nos países do Sul global. Na Europa, por exemplo, muitas camponesas padecem de uma inseguridade jurídica total, já que a maioria delas trabalham em áreas familiares onde os direitos administrativos são propriedade exclusiva do titular da área, e as mulheres, apesar de trabalharem nela, não tem direito à apoios, à plantação, à uma cota do leite, etc.

Como explica Isabel Vilalba Seivane, secretária de mulheres no Sindicato Labrego Galego na Galícia, os problemas das mulheres no campo, tanto nos países do Sul como nos do Norte, são comuns apesar das diferenças: "As mulheres européias estão mais centradas nas lutas por seus direitos administrativos na exploração; enquanto em outros lugares as mulheres lutam por mudanças profundas que tem a ver com a reforma agrária, com o acesso à terra e a outros recursos básicos" (Via Campesina, 2006: 26). Nos Estados Unidos, Debra Eschmeyer da National Family Farm Coalition (Coalizão Nacional de Agricultores Familiares) explica como lá também existem práticas que mostram esta desigualdade: "Por exemplo, quando uma camponesa vai sozinha a um banco buscar crédito, é mais complicado de obtê-lo do que se fosse um homem" (Via Campesina, 2006: 14).

Agroindústria versus soberania alimentar

O modelo agroindustrial atual se mostrou totalmente incapaz de satisfazer as necessidades alimentares das pessoas e incompatível com o respeito à natureza. Nos encontramos diante de um sistema agrícola e alimentar submetido a uma alta concentração empresarial ao longo de toda a cadeia comercial, sendo monopolizado por um punhado de multinacionais de agronegócios que contam com o apoio de governos e instituições internacionais, que se tornaram cúmplices, quando não em co-beneficiários, de um sistema alimentar produtivista, insustentável e privatizado. Um modelo que é utilizado como instrumento imperialista e de controle político, econômico e social por parte das principais potências econômicas do Norte, como Estados Unidos e a União Européia (assim como de suas multinacionais agro-alimentares), em relação aos países do Sul global (Toussaint, 2008; Vivas, 2009).

Como demonstra Desmarais (2007), pode-se entender o sistema alimentar como uma extensa cadeia horizontal que foi se alongando cada vez mais, distanciando a produção do consumo, e favorecendo a apropriação das diferentes etapas da produção pelas empresas agroindustriais e a perda de autonomia dos campesinos frente a estas empresas.

A situação de crise alimentar, que explodiu ao longo dos anos 2007 e 2008 com um forte aumento dos preços dos alimentos básicos/3, pôs em destaque a extrema vulnerabilidade do sistema agrícola e alimentar, e deixou para trás a cifra de milhões de pessoas que passam fome, uma em cada seis no mundo, segundo dados da FAO (2009).

Mas o problema atual não é a falta de alimentos, e sim a impossibilidade de acessá-los. De fato, a produção mundial de cereais triplicou desde os anos 60, enquanto a que população global somente duplicou (GRAIN, 2008). Com estas cifras, podemos afirmar que se produz comida suficiente para alimentar toda a população, mas para os milhões de pessoas dos países do Sul que destinam entre 50 e 60% da renda na compra de alimentos, valor que pode chegar até 80% nos países mais pobres, o aumento do preço da comida torna o acesso a ela impossível.

Existem razões de fundo que explicam o porque da profunda crise alimentar. As políticas neoliberais aplicadas indiscriminadamente no transcorrer dos últimos 30 anos em escala planetária (liberalização comercial ao extremo, pagamento da dívida externa por parte dos países do Sul, a privatização dos serviços e bens públicos...) assim como um modelo de agricultura e alimentação ao serviço de uma lógica capitalista são os principais responsáveis por esta situação, desmontando o modelo de agricultura camponesa que garantiu a segurança alimentar dos povos durante décadas (Holt-Giménez e Patel, 2010).

Frente a este modelo agrícola dominante que tem um impacto muito negativo nas pessoas, especialmente nas mulheres, e no meio ambiente, se suscita o paradigma da soberania alimentar. Uma alternativa política que consiste no "direito de cada povo em definir suas próprias políticas agropecuárias e alimentares, proteger e regulamentar a produção agropecuária nacional e o mercado doméstico" (VVAA, 2003: 1). Trata-se de recuperar nosso direito em decidir sobre o que, como e onde se produz o que comemos; que a terra, a água, as sementes estejam nas mãos das e dos camponeses; que sejamos soberanos no que diz respeito a nossa alimentação.

Entretanto, se as mulheres representam a metade da mão de obra no campo em escala mundial, uma soberania alimentar que não inclua uma perspectiva feminista estará condenada ao fracasso. A soberania alimentar implica em romper não somente com um modelo agrícola, como também com um sistema patriarcal que oprime e subordina as mulheres.

Trata-se de incorporar a perspectiva feminista à soberania alimentar. Como mostra Yoon Geum Soon da associação de mulheres camponesas coreanas KWPA e representante da Via Campesina na Ásia: "O feminismo é um processo que permite conseguir um lugar digno para as mulheres dentro da sociedade, para combater a violência contra as mulheres, e também reivindicar e reclamar nossas terras e salvar-las das mãos de transnacionais e das grandes empresas. O feminismo é a via para que as mulheres camponesas possam ter um papel ativo e digno no seio da sociedade" (Via Campesina, 2006:12).

A Via Campesina


A Via Campesina é o principal movimento internacional de pequenos agricultores e promotor do direito dos povos à soberania alimentar. A Via foi constituída em 1993, na aurora do movimento antiglobalização, e progressivamente se converteu em uma das organizações de referência na crítica da globalização neoliberal. Sua ascensão é a expressão da resistência camponesa ao colapso do mundo rural, provocado pelas políticas neoliberais e a intensificação das mesmas com a criação da Organização Mundial para o Comércio (Antenas e Vivas, 2009a).

Desde a sua criação, a Via Campesina configurou uma identidade "camponesa" politizada, ligada à terra, à produção dos alimentos e à defesa da soberania alimentar, construída em oposição ao modelo atual do agronegócio (Desmarais, 2007). A Via encarna um novo tipo de "internacionalismo camponês" (Bello, 2009), que podemos conceituar como o "componente camponês" do novo internacionalismo das resistências representado pelo movimento antiglobalização (Antenas e Vivas, 2009b).

No ano de 1996, coincidindo com a Cúpula Mundial sobre a Alimentação da FAO, em Roma, a Via levantou a proposta da soberania alimentar como uma alternativa política a um sistema agrícola e alimentar profundamente injusto e depredador. Esta demanda não implica em um retorno romântico ao passado, mas se trata de recuperar o conhecimento e as práticas tradicionais e combiná-las com as novas tecnologias e novos saberes (Desmarais, 2007). Nem deve consistir, como assinala McMichael (2006), em um enfoque localista ou uma "mistificação do pequeno", mas sim em repensar o sistema alimentar mundial para favorecer formas democráticas de produção e distribuição de alimentos.


Uma perspectiva feminista


Com o tempo, a Via incorporou uma perspectiva feminista, trabalhando para conseguir a igualdade de gênero no seio de suas organizações, assim como estabelecendo alianças com grupos feministas como a rede internacional da Marcha Mundial das Mulheres, entre outros.

No seio da Via Campesina, a luta das mulheres se situa em dois níveis. Por um lado, a defesa de seus direitos como mulheres dentro das organizações e na sociedade em geral e, por outro lado, a luta como camponesas, junto a seus companheiros, contra o modelo de agricultura neoliberal (EHNE e La Vía Campesina, 2009).

Desde a sua constituição, o trabalho feminista na Via Campesina deu passos importantes adiante. Na 1ª Conferência Internacional de Mons (Bélgica), em 1993, todos os coordenadores eleitos eram homens e a situação da mulher camponesa praticamente não recebeu nenhuma menção na declaração final, embora tenha sido identificada a importância de integrar suas necessidades ao trabalho da Via. Mas esta conferência falhou em estabelecer mecanismos que assegurassem a participação das mulheres em encontros sucessivos. Desta forma, na 2ª Conferência Internacional em Tlaxcala (México), em 1996, a porcentagem de mulheres dentre os participantes foi igual à 1ª Conferência Internacional, uns 20% do total. Para resolver esta questão, foram acordados mecanismos que permitissem uma melhor representação e participação, e se criou um comitê especial de mulheres, que mais adiante seria conhecido como a Comissão de Mulheres da Via Campesina.

Esta orientação política facilitou a incorporação de contribuições feministas nas análises da Via. Por exemplo, quando o conceito de soberania alimentar foi apresentado publicamente, coincidindo com a Cúpula Mundial sobre a Alimentação da FAO, em Roma, em 1996, as mulheres contribuíram com demandas próprias, como a necessidade de produzir os alimentos localmente, incluíram a dimensão da saúde humana às "práticas agrícolas sustentáveis", exigiram a redução drástica dos insumos químicos prejudiciais à saúde, e defenderam a promoção ativa da agricultura orgânica. Além disso, e devido ao acesso desigual das mulheres aos recursos produtivos, insistiram que a soberania alimentar não podia ser alcançada sem uma maior participação feminina na definição das políticas camponesas (Desmarais, 2007).

Para Francisca Rodríguez da associação campesina ANAMURI, no Chile: "Assumir a realidade e demandas das mulheres rurais tem sido um desafio dentro de todos os movimentos camponeses (...) A história deste reconhecimento passou por diversas etapas: da luta interna pelo reconhecimento, da ruptura com as organizações machistas (...) E ao longo destes últimos 20 anos as organizações de mulheres camponesas ganharam identidade (...), nos reconstruímos como mulheres em um meio rural esmagado" (Mugarik Gabe, 2006:254).

O trabalho da Comissão de Mulheres permitiu fortalecer o intercâmbio entre mulheres de países diferentes, organizando, por exemplo, encontros específicos de mulheres coincidindo com cúpulas e reuniões internacionais. Entre os anos 1996 e 2000, o trabalho da Comissão focou, principalmente, na América Latina, onde através da formação, do intercâmbio, da discussão e do empoderamento das camponesas, aumentou a participação delas em todos os níveis e atividades da Via.

Como destaca Desmarais (2007: 265): "Na maioria dos países, as organizações camponesas e agrícolas estão dominadas por homens. As mulheres da Via Campesina se negam a aceitar estas posições subordinadas. Mesmo reconhecendo o caminho longo e difícil que têm pela frente, elas aceitam de forma entusiasmada o desafio e prometem alcançar um papel de destaque na transformação da Via Campesina como um movimento comprometido com a igualdade de gênero".

Em outubro de 2000, exatamente antes da 3ª Conferência Internacional da Via em Bangalore (Índia), se organizou a 1ª Assembléia Internacional das Mulheres Camponesas, que permitiu uma maior participação das mulheres na Conferência. A Assembléia aprovou três grandes objetivos para realizar: a) Garantir a participação de 50% de mulheres em todos os níveis de decisões e nas atividades da Via Campesina. b) Manter e fortalecer a Comissão das Mulheres. c) Garantir que os documentos, os eventos de formação e os discursos da Via Campesina superassem o conteúdo sexista e a linguagem machista (Desmarais, 2007).

Desta forma, na 3ª Conferência Internacional, se acordou uma mudança de estrutura que garantiu a equidade de gênero. De acordo com Paul Nicholson da Via Campesina: "[Em Bangalore] decidiu-se pela equidade homem e mulher nos espaços de representação e cargos de nossa organização, e se iniciou um processo interno de reflexão sobre o papel das mulheres na luta camponesa (...). Agora a perspectiva de gênero está sendo abordada de maneira séria, não somente no âmbito da paridade nos cargos, como também com um debate profundo sobre as raízes e tentáculos do patriarcado e sobre a violência contra a mulher no mundo rural" (Soberania alimentaria, biodiversidad y culturas, 2010: 8).

Esta estratégia forçou as organizações membro da Via Campesina em nível nacional e regional a repensar seu trabalho em uma perspectiva de gênero e incorporar novas ações encaminhadas para fortalecer o papel da mulher (Desmarais, 2007). Assim ratificou Josie Riffaud da Confédération Paysanne (Confederação Camponesa) na França ao afirmar que "a decisão da paridade foi fundamental na Via Campesina, pois possibilitou que na minha organização, a Confédération Paysanne, pudéssemos aplicar também esta medida" (La Vía Campesina, 2006: 15).

No âmbito da 4ª Conferência Internacional em São Paulo, em junho de 2004, foi celebrada a 2ª Assembléia Internacional das Mulheres Camponesas, que reuniu mais de uma centena de mulheres de 47 países de todos os continentes. As principais linhas de ação que surgiram do encontro foram tomar medidas contra a violência física e sexual contra as mulheres, tanto no âmbito doméstico como no geopolítico, exigir igualdade de direitos e investir na formação. Como assinalava sua declaração final: "Exigimos nosso direito a uma vida digna; o respeito a nossos direitos sexuais e reprodutivos; e a aplicação imediata de medidas para erradicar toda forma de violência física, sexual, verbal e psicológica (...) Exigimos que os Estados implementem medidas que garantam nossa autonomia econômica, acesso à terra, à saúde, à educação e a um status social igualitário" (2ª Asamblea Internacional de Mujeres Campesinas, 2004).

Em outubro de 2006 foi realizado o Congresso Mundial das Mulheres da Via Campesina em Santiago de Compostela (Espanha), no qual participaram mulheres de organizações agrárias da Ásia, América do Norte, Europa, África, e América Latina, com o objetivo de analisar e debater o que significa a igualdade no campo a partir da perspectiva feminista e estabelecer um plano de ação para conseguí-la. Como mostrava Sergia Galván, do Colectivo Mujer y Salud da República Dominicana, em uma das conferências do Congresso, as mulheres da Via tinham três desafios adiante: a) Avanças na reflexão teórica para incorporar a perspectiva camponesa nas análises feministas. b) Continuar trabalhando na autonomia como referência vital para a consolidação do movimento de mulheres camponesas. c) Superar o sentimento de culpa na luta para alcanças maiores espaços de poder frente aos homens (La Vía Campesina, 2006).

O Congresso Mundial das Mulheres da Via pôs em destaque a necessidade de fortalecer ainda mais a articulação das mulheres da Via e aprovou a criação de mecanismos para um maior intercâmbio de experiências e planos de lutas específicos. Além disso, observaram-se avanços na redução da discriminação das mulheres, apesar de que ainda havia muito por fazer. Dentre as propostas concretas aprovadas estava articular uma campanha mundial para lutar contra as violências que se exercem sobre as mulheres; estender os debates a todas as organizações que fazem parte da Via; e trabalhar para que os direitos das mulheres camponesas sejam reconhecidos, exigindo igualdade real no acesso a terra, aos créditos, aos mercados e aos direitos administrativos (La Vía Campesina, 2006).

Coincidindo com a 5ª Conferência Internacional da Via Campesina em Maputo, Moçambique, outubro de 2008, foi realizada a 3ª Assembléia Internacional de Mulheres. Nesta se aprovou o lançamento de uma campanha específica contra a violência contra as mulheres, ao constatar como todas as formas de violência que as mulheres enfrentam na sociedade (violência física, econômica, social, machista, de diferenças de poder, cultural) também estão presentes nas comunidades rurais e nas suas organizações.

Entretanto, o trabalho focado em obter maior igualdade de gênero não é fácil. Apesar da paridade formal, as mulheres tem maiores dificuldades para viajar e participar de encontros e reuniões. Como mostra Desmarais (2007: 282): "Existem muitas razões para que as mulheres não participem neste nível. Talvez a mais importante é a persistência de ideologias e práticas culturais que perpetuam relações de gênero desiguais e injustas. Por exemplo, a divisão dos trabalhos por gênero significa que as mulheres rurais tem muito menos acesso ao recurso mais precioso, o tempo, para participar como líderes nas organizações agrícolas. Tendo em vista que as mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado das crianças e dos idosos (...). A jornada tripla das mulheres - que implica no trabalho reprodutivo, produtivo e comunitário - torna muito menos provável que elas tenham tempo para sessões de formação e aprendizagem para sua capacitação como líderes".

Trata-se de uma luta contracorrente e, apesar de algumas vitórias concretas, nos encontramos frente a um combate de longo curso, tanto nas organizações como, mais em geral, no social.

Tecendo alianças

No que diz respeito às alianças, a Via Campesina estabeleceu colaboração com várias organizações e movimentos sociais em nível internacional, regional e nacional. Uma das mais significativas tem sido o trabalho conjunto, em cada um destes níveis, com a Marcha Mundial das Mulheres, uma das principais redes globais feministas com quem convocaram ações conjuntas, encontros e se tem colaborado em atividades e conferências internacionais, juntamente com outros movimentos sociais, como por exemplo o Fórum Internacional pela Soberania Alimentar, que aconteceu em Mali, em 2007, entre outros.

O encontro entre as redes se deu, inicialmente, na estruturação do movimento antiglobalização, ao coincidir com contra-cúpulas internacionais, assim como nas atividades do Fórum Social Mundial, e serem ambas, juntamente com outras redes, promotoras da Assembléia de Movimentos Sociais do Fórum Social Mundial. Desta maneira, a incorporação de uma perspectiva feminista no seio da Via e do trabalho camponês, e a favor da soberania alimentar gerou mais pontes de encontro que se intensificaram ao passar do tempo.

Assim ficou claro no Fórum pela Soberania Alimentar celebrado no início de 2007 em Sélingué, um pequeno povoado rural do sudeste de Mali. Um encontro convocado pelos principais movimentos sociais de escala internacional como a Via Campesina, a Marcha Mundial das Mulheres, o Fórum Mundial dos Povos Pescadores, entre outros, e que permitiu avançar na definição de estratégias conjuntas entre um amplo leque de movimentos sociais (camponeses, pescadores, pastores, consumidores...) a favor da soberania alimentar.

As mulheres tiveram um papel central neste encontro, como dinamizadoras, organizadoras e participantes. Elas afirmaram o mito de Nyéléni, uma mulher camponesa malinense que lutou para firmar-se como mulher em um entorno desfavorável. De fato, o Fórum pela Soberania Alimentar recebeu o nome de Nyéléni em homenagem a esta lenda. Delegadas de países da África, América, Europa, Ásia e Oceania, integrantes de diferentes setores e movimentos sociais, participaram do encontro e indicaram o sistema capitalista e patriarcal como responsável pelas violações dos direitos das mulheres, reafirmando seu compromisso em transformá-lo.

A Marcha Mundial das Mulheres, fruto deste trabalho e colaboração, assumiu a demanda da soberania alimentar como um direito inalienável dos povos, e em especial, das mulheres. Miriam Nobre, coordenadora do secretariado internacional da Marcha, participou em outubro de 2006 do Congresso Mundial das Mulheres da Via Campesina com uma intervenção sobre o movimento feminista global. E o 7º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres em Vigo, Espanha, em outubro de 2008, contou com a organização de um fórum e uma feira pela soberania alimentar, mostrando a capacidade de vincular a luta feminista com a luta das mulheres camponesas.

Esta colaboração se observa também a partir da dupla militância de algumas mulheres que são membros ativos da Marcha Mundial das Mulheres, e que formam parte das organizações da Via Campesina. Estas experiências permitem estreitar os vínculos e colaborações entre ambas redes e fortaleces a luta feminista como camponesa, visto que ambas se inserem em um combate mais amplo contra o capitalismo e o patriarcado.


Como conclusão


Ao longo das últimas décadas o sistema agrícola e alimentar global tem demonstrado sua total incapacidade para garantir a segurança alimentar das comunidades, visto que atualmente mais de um bilhão de pessoas no mundo passam fome, ao mesmo tempo que demonstrou seu forte impacto no meio ambiente como um modelo agroindustrial quilométrico, intensivo, gerador de mudanças climáticas, que acaba com a agrobiodiversidade, etc. Este sistema se revelou especialmente agressivo com as mulheres. Apesar delas produzirem entre 60 e 80% dos alimentos nos países do Sul global, e uns 50% em todo o mundo, são elas que mais padecem com a fome.

Avanças na construção de alternativas ao modelo agrícola e alimentar atual implica em incorporar uma perspectiva de gênero. A alternativa da soberania alimentar ao modelo agroindustrial dominante deve ter um posicionamento feminista de ruptura com a lógica patriarcal e capitalista.

A Via Campesina, o principal movimento internacional a favor da soberania alimentar, tem isso muito claro. Trata-se de avançar nesta direção e criar alianças com outros movimentos sociais, em especial com organizações e redes feministas, como a Marcha Mundial das Mulheres. Promover redes e solidariedade entre as mulheres do Norte e Sul, urbanas e rurais, e destas com seus companheiros para, como diz a Via: "Globalizar a luta. Globalizar a esperança".


Bibliografía

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Notas:
1/Para uma análise mais detalhada da evolução histórica do sistema alimentar mundial, ver McMichael (2000).
2/Todas as camponesas citadas neste artigo fazem parte de organizações membro da Via Campesina.
3/Segundo o índice de preços dos alimentos da FAO, entre 2005 e 2006, houve um aumento de 12%; no ano seguinte, 2007, um crescimento de 24%; e entre janeiro e julho de 2008, uma elevação de cerca de 50%. Os cereais e outros alimentos básicos foram os que sofreram os aumentos mais importantes (Vivas, 2009).

*Esther Vivas é membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais da Universidade Pompeu Fabra e é autora de "En pie contra la deuda externa" (El Viejo Topo, 2008), co-autora, juntamente com J. M. Antenas, de "Resistencias globales" (Ed. Popular, 2009), entre outros livros.
**Artigo publicado em El Viejo Topo, n. 288.
**Tradução: Roberta Sá.

+info: http://esthervivas.wordpress.com/portugues

Artistas se reúnem em Tributo ao bailarino Igor Xavier

Na noite desta quarta-feira, 29 de fevereiro,  artistas do Norte de Minas e de Belo Horizonte se reuniram no teatro da Assembleia Legislativa em um ato artístico por justiça, por Igor Xavier, assinado há 10 anos brutalmente em Montes Claros. A mãe do bailarino, Marlene Xavier esteve presente, convocando a todos para estarem presentes também nesta quinta-feira, na Praça Sete, no centro de Belo Horizonte, a partir das 16 horas, em um ato contra a impunidade. "O caso será julgado em Belo Horizonte e o que se espera é de que no próximo ano, todos possam estar juntos novamente, mas desta vez para celebrar o fim da injustiça.", este é o desejo dos participantes deste espetáculo, amigos, parentes e todos que lutam por um mundo de paz e respeito à diversidade.


Participaram do espetáculo “Arte Contra A Impunidade-Tributo ao Bailarino Igor Xavier" os artistas Helena Soares, Jovino Machado, Aroldo Pereira, Simone Xavier,, Patricia Giseli, Carlos Farias, Geovanni Sassá, Makely Ka, Gilberto de Abreu, Wilmar Silva, Marcio Levy, Wagner Torres, José Edward Lima , Pablo Leite, Rogério Salgado, Brenda Marques, Wellington Kalil, Bianca Luar,Yan Guedes, Ênio Poeta, Pablo Leite, Rosa Helena, Anelito de Oliveira e Diego Kartz.

Veja fotos tiradas pela jornalista Brenda Marques Pena, presidente do Imersão Latina, que também participou com um poema, das apresentações artísticas deste Tributo ao Bailarino Igor Xavier em: http://imersaolatina.ning.com e aproveite para fazer seu cadastro e tornar-se um dos membros da nossa rede de difusão cultural.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Arte contra impunidade: Tributo ao bailarino Igor Xavier terá série de atividades culturais a partir de amanhã



Por Aroldo Pereira*

De 29 de fevereiro a 03 de março a Associação SocioculturalIgor Vive em pareceria com o Coletivo Retomada, promoverá simultaneamente em Montes Claros e Belo Horizonte a Semana Cultural Igor Xavier, com muita agitação cultural e luta pelos direitos humanos. Essa promoção acontece anualmente e tem como objetivo propagar e apresentar arte/cultura/invençâo e luta permanente contra injustiças sociais.Consolidando o trabalho na cena municipal,estadual e nacional; proporcionando a celebração da vida através de arte e cultura. Juntas essas entidades proporcionarão muitos eventos em beneficio da juventude e de todos os segmentos da sociedade.

Dentro da programação da Semana Cultural Igor Xavier e Grito Rock vamos promover em Belo Horizonte e Montes Claros do dia 29 de fevereiro a 03 de março de 2012, apresentações artísticas e movimentações públicas contra a impunidade.


Dia 29 de fevereiro, em Montes Claros esta programado:
01 ato Publico contra os 10 anos de impunidade do "Caso Igor Xavier" às 17 horas na Praça Dr. Carlos, que simboliza o coração da cidade.

Em Belo Horizonte no mesmo dia acontecerá no Teatro Gustavo Capanema da Assembléia Legislativa,as 20:00 hs, com entrda gratuita, 01 grande espetáculo “Arte Contra A Impunidade-Tributo ao Bailarino Igor Xavier".Com participações de artistas do Norte de Minas Gerais e de Belo Horizonte:
Helena Soares, Jovino Machado, Aroldo Pereira, Simone Xavier,, Patricia Giseli, Carlos Farias, Geovanni Sassá, Makely Ka, Gilberto de Abreu, Wilmar Silva, Marcio Levy, Wagner Torres, José Edward Lima , Pablo Leite, Rogério Salgado, Brenda Marques, Wellington Kalil, Bianca Luar,Yan Guedes, Ênio Poeta, Pablo Leite,
Rosa Helena, Anelito de Oliveira, Diego Kartz

Constando de poesia/teatro/música/performance/dança/vídeo.


Dia 1º de março, a Associação Igor Vive, juntamente com entidades culturais e de Direitos Humanos realizará uma manifestação na Praça Sete em Belo Horizonte de 16 as 18 horas , denunciando os dez anos de impunidade do crime homofóbico cometido contra o bailarino Igor Leonardo Lacerda Xavier, pelos “senhores” Ricardo Athayde Vasconcelos e Diêgo Rodrigues Athayde Vasconcelos em 2002 , cujos, se encontram em liberdade desafiando todos os princípios do respeito, moral e cidadania.

Em Montes Claros acontece às 20:00 hs no Espaço Cultural Quintal localizado à Av. Cel Prates centro, um espetáculo coletivo, com participações da Banda Mustang, Banda Elefante Fly, Sholmes Souto, Fredyrosa wander, La Radiolina e perfomances poéticas e teatrais com Renilson Durâes, Albino José dos Santos, Marlene Bandeira e Vera Verissimo, entre outros.

Dias 02 e 03 de março acontece o Grito Rock na boite Dioway, rua Mestre Janjão 367.B. São José com muitas bandas convidadas entremeadas por performances,com entrata a R$10,00.

Em todos esses momentos haverá a presença e participação de Marlene Xavier, mãe do bailarino assassinado e mulher de fibra que por esses dez anos tem lutado incansavelmente contra o poder do dinheiro e da influência política, que ainda mantém o judiciário maculado com tamanha impunidade.

*Visite: www.psiupoetico.com.br
E-mail: aroldopereirapoeta@yahoo.com.br

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

“Entre os gringos de Nova York e os sem casa do Brasil, há um mesmo gesto de contestação: só a representação não basta"

Por João Paulo Cunha*
Foto: Brenda Marques Pena

As palavras não são isentas, trazem carga emocional e política, traduzem visões de mundo. O recente movimento Occupy Wall Street parece ter dado novo sentido à palavra ocupação. Se num país, que sempre foi modelo ideológico de liberdade, a população – principalmente os jovens – está nas ruas ocupando praças e centros simbólicos do poder econômico, há algo que precisa ser melhor entendido. Em primeiro lugar, a liberdade que serve aos propósitos econômicos não tem a mesma tradução quando se trata de manifestação política. Além disso, a ausência de padrão de convivência com as pessoas na rua mostra que a dimensão pública não é uma experiência corrente na sociedade em que privatizar é um juízo moral positivo. Por fim, a exposição pública de discordância deixa de ser pontual para ir ao coração do sistema. Não dá mais para esperar o show da próxima eleição presidencial.

O que os jovens de várias partes do mundo têm mostrado é que a ilusão do futuro ruiu. A crise nas economias ricas, com a diminuição do crescimento, parece mostrar que as bases da economia mundial não se sustentam mais. As pessoas perceberam que, mesmo que façam tudo como manda o figurino, nada está garantido. A mutipolarização do mundo impede que as dificuldades sejam hoje exportadas. Durante décadas, as regras do mercado não davam aos países periféricos condições de igualdade, o que fazia deles válvulas de escape dos distúrbios centrais. Hoje, com mercados internos fortes e alianças que passam ao largo das grandes economias, os países pobres e em desenvolvimento precisam se dar conta das próprias expectativas de crescimento e liberdade.

Outro fato que vai se tornando cada vez menos aceito é a tradução financeira da economia, como se a garantia a ser dada aos bancos e instituições insolventes fosse indispensável à saúde de todo o sistema. Bancos passaram a ser vistos como de fato são: vendedores de crédito e cobradores de juros. E, muitas vezes, incompetentes, quando não criminosos, nas duas operações: vendem o que não possuem e cobram além do razoável. Se por muito tempo as pessoas projetaram pôr o dinheiro para trabalhar a seu favor, hoje sabem que nada substitui a produção. Não é à toa que o emprego e a educação se tornaram os grandes ativos de confiabilidade no mundo líquido.

Outro mito que cai com a crise da economia é a atração magnética entre democracia e desenvolvimento. O mundo ocidental patrocinou as mais cruentas ditaduras contemporâneas para preservar sua estrutura de ganhos. Escravizou populações para preservar o suprimento de petróleo e, quando a crise extrapolou a dimensão meramente energética e se revelou na contramão de movimentos internos de liberdade, comemorou a libertação de “seus” ditadores e ainda inventou que tudo só foi possível por causa do Facebook. As democracias ocidentais estão na origem das ditaduras do Oriente Médio e Norte da África, e não no seu desenlace.

Quando os jovens americanos e europeus ocupam praças e ruas estão dando um passo à frente, mas não inovam em termos de atitude política. Ao sul do planeta, as ocupações são estratégias de sobrevivência e contestação ao modelo de concentração econômica. E não é de hoje. Por isso é interessante entender a dialética que parece opor palavras como ocupação e invasão. Atrás delas estão visões de mundo e interesses que apontam para formas também diferenciadas de se praticar a política e o protagonismo social. Entre os gringos de Nova York e os sem casa de Belo Horizonte, há um mesmo gesto de contestação: só a representação não basta. No limite, a possibilidade de conviver com a participação direta é o índice de democracia de um Estado liberal.

Sem tudo

No Brasil, o significante “invasão” se relaciona com o crime, com o desrespeito à propriedade privada, com a apropriação de bem demarcado em sua posse e sentido econômico. Os invasores tomam o que não é deles, destroem a produção, impedem a aplicação da lei e subvertem a noção de Justiça. O invasor é elemento que desestrutura aquilo que é funcional: derruba pés de laranja, quer trocar milhões de toneladas de grãos por uma feira de produtos orgânicos, estabelece padrões de produção que não atendem às necessidades externas.

A força da palavra invasão encontra, no entanto, limites na própria interpretação da lei, que defende, constitucionalmente (portanto acima de qualquer norma inferior) o valor social da propriedade. Além disso, a produção extensiva de carne e grãos no Brasil conflita não apenas com a lógica da necessidade de alimentar a população (o que a soja transgênica não faz, já que ninguém se alimenta de soja, a não ser carneiros e porcos), mas com a própria ciência contemporânea e as diretrizes da sustentabilidade.

Foi em razão disso que os movimentos sociais, preocupados com a dimensão simbólica das palavras e de sua tradução na vida social, assumiram a palavra “ocupação”, em lugar de invasão. Quem ocupa tem como fundamento de seu ato a legalidade, a moralidade, a ciência e a política, todas no sentido mais alto: legalidade constitucional, moralidade pública, ciência contemporânea e política como expressão da liberdade, inclusive com a capacidade de assumir formas novas de relacionamento e prestação de serviços (como a educação, que são prioridade nos assentamentos). Os sem terra brasileiros já fazem o movimento “ocupe” há muitos anos e, não fosse isso, a estrutura inflexível das relações no campo não teria se mexido.

Em  Belo Horizonte, um movimento de ocupação que merece destaque. Na região da Nova Pampulha, o Dandara reúne cerca de 4 mil pessoas, que vivem numa ocupação “rururbana”, em área desprezada há 40 anos, e que só agora vem despertando o interesse de uma construtora que reclama sua posse, depois de deixar a área abandonada e sem qualquer forma de proteção. Organizada, com vários projetos fundados na solidariedade, a comunidade aponta para o déficit habitacional da cidade, hoje em torno de 200 mil unidades (cerca de 55 mil famílias). A cidade tem 80 mil imóveis desocupados. A desapropriação do Dandara custa menos que um décimo das obras da Copa. E não deveria custar nada. O movimento vem sendo tratado com violência pelas autoridades, sendo sujeito de estratégias recorrentes de ameaça de uso da força.

Uma das originalidades da ocupação é a união dos princípios das reformas agrária e urbana na mesma área. Hoje, a reforma agrária vai além da luta pela posse da terra para reivindicar novo modelo de produção de alimentos, sustentável e ecológico, apontando para bandeiras universais. Do mesmo modo, os movimentos por moradia despertaram para a crítica da configuração urbana e de suas estratégias de especulação. Ao recorrer a um projeto coletivo, com sustentação na economia solidária e na relação orgânica com outras formas de exercício da cidadania (inclusive na cultura), a ocupação Dandara pode dar lições aos bem-intecionados jovens de Wall Street.

As famílias na ocupação Dandara sabem o que querem, mas vivem em situação de penúria. O que parece que anda faltando é ocupação das consciências dos responsáveis pela questão, como a Câmara e a prefeitura da cidade, solertes em debater a verticalização mas cegas com o que anda ao rés do chão.



Este artigo com o título "Ocupar e invadir", de João Paulo Cunha, editor de Cultura do Jornal Estado de Minas  foi publicado no Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 19/11/2011, p. 2.)




Enviado por Gilvander Moreira
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