Memória: Benedito Nunes e Moacyr Scliar

O Brasil teve duas grandes perdas intelectuais em um único fim-de-semana: o escritor Moacyr Scliar, a quem já reverenciamos neste espaço e o filósofo e crítico literário Benedito Nunes a quem não podemos deixar de prestar a devida homenagem. Benedito Nunes morreu no domingo, em Belém do Pará, aos 81 anos, em função de problemas renais e parada cárdio-respiratória. Ao pesquisar na internet sobre os dois, encontrei no site da UNICAMP passagens e opiniões publicados no Jornal e Portal da Universidade de Campinas que reproduzo aqui:

Benedito Nunes fala de seu ‘caminho na crítica’

Luiz Sugimoto
Fotos: Antonio ScarpinettiEdição das imagens: Luís Paulo Silva

Benedito Nunes: sinto-me um pouco póstumo

[12/11/2009] Benedito Nunes, corpo franzino, mas filósofo e crítico literário de estatura internacional, marcou presença no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp na quarta-feira (11). Veio prestigiar o segundo de uma série de quatro eventos em sua homenagem - Rio de Janeiro, Unicamp, USP e Belém – no mês em que completa 80 anos de idade. “É embaraçoso. Não posso deixar de me sentir um pouco póstumo, que morri e estão falando de mim; ao menos, que falem bem”, brincou.

No congresso “Benedito Nunes, o diálogo entre literatura e filosofia”, o homenageado deu a conferência magna que intitulou “Meu caminho na crítica”. Começou lembrando o primeiro livro que leu, A caçada da onça, de Monteiro Lobato – bem como da imagem dos caçadores do Sítio do Pica Pau Amarelo, Pedrinho à frente, rebocando a onça já morta – e terminou com reticências aos pensamentos de Heidegger, o filósofo alemão de quem preferiu se afastar por ora, temendo cair no “heideggerismo”.

O autor assina um exemplar de ‘A clave do poético’, o primeiro de sete livros com ensaios esquecidos na bibliotecaA forma como Benedito Nunes promoveu a aproximação entre literatura e filosofia, analisando uma em função da outra e como elas se entrosam (ou não), vem sendo o mote dos debates envolvendo inúmeros pesquisadores do país nos eventos em sua homenagem. “Desde Kant, a filosofia também foi chamada de crítica. Não sei por qual das críticas comecei, se foi pela literatura ou pela filosofia. O fato é que este nexo tornou-se, para mim, um privilegiado objeto de reflexão”.

Antes da conferência, o intelectual paraense falou um pouco da sua trajetória no mundo das letras, que foi toda construída a partir de Belém – longe do eixo São Paulo-Rio, porém mais perto da Europa. Conta que não conheceu o pai, de quem herdou o mesmo nome e que morreu no mês anterior ao do seu nascimento em novembro de 1929. “Meu pai me deixou livros. Tive a sorte desse incentivo que veio de longe, sem nada de sobrenatural, mas que me influenciou desde o início”.

Tratava-se de parte da biblioteca da família, já que a outra parte estava em São Paulo, com o tio Carlos Alberto, que também lhe enviava muitos livros. Alguém disse que aprendeu a ler aos 4 anos, mas Benedito acha que isso se deu um pouco mais tarde. Foi educado pela tia, em casa, onde funcionava a Escola Sagrado Coração de Jesus, e depois do quinto ano passou pelo exame de admissão no Colégio Moderno.

Já estava combinado com o tio que viria estudar filosofia em São Paulo, mas acabou cursando a Faculdade de Direito do Pará, que mais tarde seria incorporada pela Universidade Federal do Pará (UFPA). “Meu tio era dono de um banco, que faliu. Fiz direito, mas comecei a dar aulas de filosofia no secundário e depois na universidade; sou um dos fundadores do curso. Numa família muito religiosa, sentia a pressão das crenças e também uma rebeldia em relação a isso. A filosofia foi o apoio que encontrei para sustentar essa rebeldia”.

Os primeiros ensaios surgiram um pouco antes da década de 1950, no suplemento literário do jornal Folha do Norte, fundado e dirigido por Haroldo Maranhão. “Era um suplemento muito bom, que publicava de trovadores e poetas locais a nomes consagrados. Eu escrevia em forma de retalhos, uma mistura de literatura e filosofia, como trechos de uma confissão – ‘Confissões solitárias’. Passei a colaborar com oJornal do Brasil, no tempo em que Mário Faustino tinha uma página de poesia, e fui chamado também pelo O Estado de S. Paulo”.

Embora Belém tenha sido sempre seu porto, Benedito Nunes navegou por outras universidades brasileiras (inclusive a Unicamp, dando aulas de estética no IEL recém-criado por Antonio Candido) e também da França e dos Estados Unidos. “Tenho a impressão de que esse movimento de sair para o estrangeiro e depois voltar ao meu lugar – de afastamento e retorno – foi muito importante. Agora estou aposentado e leciono somente onde quero e quando quero”.

Personagem aglutinador
Maria Eugênia Boaventura, do IELExtremamente solícito e bem humorado, Benedito Nunes também é humilde demais para falar de suas qualidades. Os elogios ficam por conta da professora Maria Eugênia Boaventura, do IEL, que passou uma temporada em Belém na década de 90, convidada para reorganizar e republicar um livro do filósofo com os poemas de Mário Faustino. “É interessante como ele construiu sua vida de Belém, de onde vai mais à Europa do que vem a São Paulo. Fez sua carreira com muita persistência, determinação”.

Segundo Maria Eugênia, Benedito Nunes era e continua sendo um elemento aglutinador de jovens, escritores, poetas e pesquisadores em Belém. “Não esqueça que foi amigo de Mário Faustino, com quem agitava a cidade nos anos 40. Lá também moraram grandes escritores, inclusive Clarice Lispector, e havia um jornal importante, a Folha do Norte, que publicava as mesmas críticas que saiam nos jornais do ‘sul maravilha’”.

A docente da Unicamp refere-se ao filósofo e crítico literário como “o bruxo de Belém”, conhecido e bem recebido por todos. “Uma carta que tenha no envelope apenas o seu nome, certamente vai chegar à sua casa. É uma figura humana incrível, de generosidade e simplicidade a toda prova. Pude constatar a sua forte influência na vida cultural local, juntamente com a mulher [Maria Silvia], especialista em ópera que promove inúmeros eventos no belo teatro da cidade”.

Livros trazem ensaios esquecidos
Victor Pinheiro, que coordena as atividades do mestre: ajudando também na reedição de ‘O dorso do tigre’, depois de 40 anosTal como o mestre, Victor Sales Pinheiro é formado em direito e apaixonado por filosofia (tendo mestrado e iniciando o doutorado) e coordena as atividades que Benedito Nunes desenvolve no Centro de Cultura e Formação Cristã (CCFC) da Arquidiocese de Belém. “Ele é professor emérito aposentado da UFPA, mas continua ativo dando cursos e participando de seminários literários e filosóficos. Eu passei a ajudá-lo e a me interessar por sua obra”.

Com acesso à biblioteca do intelectual, Victor Pinheiro se deparou com um vasto material esparso – ensaios publicados em revistas e jornais, separatas e alguns inéditos – que vão resultar em sete livros. “Encontrei mais de 200 ensaios, que organizei em pastas e mostrei a ele, recebendo sua autorização para procurar as editoras. A acolhida tem sido muito boa, pois é uma obra original, importante e profunda”.

O primeiro livro é A clave do poético” (Companhia das Letras), organizado por Pinheiro e lançado nesta quinta-feira na USP, em evento similar ao realizado na Unicamp. “O livro traz uma parte com crítica, teoria e história literária, e outra com críticas de autores como Drumond, Clarice Lispector e clássicos como Machado de Assis, Euclides da Cunha e Padre Vieira. Também ajudei na reedição de O dorso do tigre, clássico de 1969 que volta depois de 40 anos pela Editora 34”.

Para Scliar, ciência e literatura são compartimentos da mesma cultura


Foto: Folha ImagemA medicina é um terreno fértil de inspiração para os escritores na opinião de Moacyr Scliar, um dos palestrantes do evento “Diversidade na Ciência II – uma reflexão sobre o conhecimento e seu modo de produção”. Médico sanitarista e um dos mais importantes escritores brasileiros, Scliar revela que sua literatura se beneficiou da leitura de textos científicos. “A influência da medicina sobre a minha literatura foi transcendente”. Na entrevista que segue, o escritor gaúcho fala também da importância da tecnologia na prática da medicina, discute a relação médico-paciente nesse contexto e a importância da transdisciplinaridade na difusão do conhecimento.

Jornal da Unicamp - O senhor pertence à linhagem dos escritores médicos, como Cronin, Pedro Nava, Guimarães Rosa e alguns outros. As duas atividades se interpenetram e dialogam entre si?

Moacyr Scliar - Não tenho dúvida. Acho que a prática da medicina representa um verdadeiro mergulho na natureza humana, que é afinal o terreno fértil de inspiração para os escritores. Médicos e escritores partilham esse interesse pelo ser humano. De outra parte, a literatura ajuda também a prática da medicina. Não só escrever, como ler. Muitos escritores souberam traduzir, nos seus textos ficcionais ou não-ficcionais, o fenômeno da doença e a relação médico-paciente, de uma forma que resulta em aprendizado muito útil tanto para o estudante de medicina como para os médicos. Aliás, não é por outra razão que muitas faculdades de medicina desenvolvem uma disciplina chamada “Humanidades médicas”, que busca alargar o horizonte intelectual dos profissionais. E, nessa disciplina, a leitura de texto ficcionais, como é o caso de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, é usado como uma forma de aumentar a compreensão do profissional em relação à aproximação com o paciente.

JU - O senhor diz na súmula de sua palestra que as humanidades, “aí compreendidas a literatura, línguas, filosofia e arte, precisam do rigor lógico da ciência”, assim como a ciência “precisa da flexibilidade, da liberdade de imaginação que resulta da prática humanística”. Em que sentido a literatura, para ser específico, poderia servir-se do “rigor lógico da ciência”?

Scliar
- Posso dar um exemplo pessoal. Acho que o texto científico prima pela objetividade, pela concisão e pela precisão. Essas qualidades, paradoxalmente, ajudam muito no texto literário. A escrita de um texto ficcional não necessariamente rejeita essas qualidades que caracterizam o texto científico. Não existe aquilo, que no passado se falava, de duas culturas separadas: a literária e a científica. Na verdade, são dois compartimentos de uma mesma cultura. Acho que o meu texto, de uma maneira geral, se beneficiou muito dessa leitura dos textos médicos e dos textos científicos.

"O texto científico prima pela objetividade, pela concisão
e pela precisão. Essas qualidades ajudam muito no texto literário
"

JU - Da mesma forma, o senhor diz que a ciência teria muito a lucrar com uma aproximação da prática humanística. Mais uma vez: em que sentido? Em sua opinião, a ciência está desumanizada?

Scliar
- O que acontece hoje com a prática médica é que ela recorre muito à tecnologia. Praticamente não existe hoje uma área da medicina à qual a tecnologia não desempenhe um papel. Isso significa procedimento, exame, equipamento. E pode acontecer que essa tecnologia em excesso funcione como uma barreira entre o médico e o paciente, que pode passar a se sentir um objeto de uma investigação, ressentindo-se da falta do contato humano. A literatura é um exemplo do contato humano sob a forma de um texto. Acho que o ato de ler e escrever afina a sensibilidade do médico e faz com que ele, sem desprezar a tecnologia, valorize essa relação médico-paciente.

JU - Ao depender cada vez mais da ciência e da tecnologia, o senhor afirma que a prática médica estaria se afastando da “arte da medicina”. Pode exemplificar como isto se dá? Como resolver a questão?

Scliar
- Quero dizer em primeiro lugar que a tecnologia melhorou enormemente a prática médica. Se ela gerou problemas, esses problemas não devem ser enfrentados com a marginalização da tecnologia. Nós precisamos de mais tecnologia, não de menos. O que precisamos é fazer com que a tecnologia não desloque o relacionamento entre seres humanos porque, afinal de contas, a prática médica é fundamentalmente isso, uma relação entre pessoas, sendo que uma das quais tem habilidades e a outra tem um problema. Mas, ao cabo de tudo, são pessoas que em algum momento terão que se relacionar como pessoas.

JU - Se o senhor não fosse médico, mas advogado, jornalista ou engenheiro, sua literatura seria diferente?
Scliar - Seria diferente, sem dúvida. A influência da medicina sobre a minha literatura foi transcendente. A gente muda como ser humano quando estuda e pratica a medicina. É uma profissão que exige um tal envolvimento pessoal que acarreta inevitavelmente uma transformação. O médico pode usar vários instrumentos no seu trabalho, mas o principal instrumento é ele. É o que ele diz, a maneira como se relaciona com o paciente, a maneira como o toca. Todas essas coisas são importantes. Vejo isso na minha literatura. O próprio texto mudou, doença é uma coisa que freqüentemente aparece, assim como médicos. Mas, além disso, mergulhei mais fundo na natureza humana do que mergulharia com qualquer outra profissão. Não digo que isso seja uma condição sine qua non, mas que ajuda, ajuda.

JU - O avanço tecnológico coloca novas questões no campo da ética. Como o senhor analisa esse novo cenário?
Scliar - Ninguém tem uma resposta precisa sobre isso, mas algumas coisas certamente apresentam um caminho equivocado. Uma delas é a relação entre médicos e pacientes no tribunal. Pacientes estão constantemente processando médicos, que por sua vez estão praticando o que a gente chama de medicina defensiva. Trata-se de uma medicina que fica atenta à possibilidade de processos judiciais. Isso aumenta custos, perturba a relação entre médicos e pacientes e acaba prejudicando a qualidade do atendimento. Acho que não é por aí. É preciso rediscutir as relações entre médicos e pacientes à luz das novas tecnologias.


JU - Alguns intelectuais argumentam que a tecnociência é pouco afeita ao debate, sobretudo quando associada a grandes corporações. O senhor concorda?
Scliar - As grandes corporações têm uma presença muito grande no nosso mundo. Agora, as pessoas não são obrigadas a aceitar isso como fato consumado. Há muitas maneiras de reagir contra essa situação, afinal de contas a democracia que enseja o surgimento dessas corporações também dá meio para que as pessoas possam se defender do controle corporativo. Muitas entidades e organizações podem contrabalançar o poder das corporações.

JU - O senhor escreve que “ciência e humanidades constituem compartimentos quase estanques, ‘duas culturas’, segundo a expressão do físico e escritor inglês Charles Percy Snow. A barreira, contudo, é artificial e resulta de um especialismo que acaba por prejudicar tanto ciências como humanidades, que ganhariam muito mais se houvesse um efetivo intercâmbio entre as áreas”. O senhor acha que tem havido um esforço para que essa barreira desapareça?
Scliar - Não tenho dúvida. Em 1993, só para dar um exemplo, na qualidade de professor visitante da Brown University, nos Estados Undiso, dei um curso sobre a imagem do médico e da medicina na literatura. Então, as pessoas já se deram conta disso. A conferência do Snow foi muito importante no sentido de alertar, mas não se deve tomar aquelas afirmações que ele fez, naquela ocasião, como uma coisa definitiva.

JU - Até que ponto o senhor acha que a transdisciplinaridade é importante na difusão e na produção do conhecimento?
Scliar - Ela é fundamental. Na área que trabalhei – e continuo trabalhando – que é saúde pública, é uma tendência irreversível. Acho que na medicina e em outras áreas, também. A separação entre especialidades que correspondem a uma necessidade de aprofundar o conhecimento, não é inevitável. Em algum momento, até porque são especialidades, elas terão que se unir para resolver problemas que têm em comum.

"É preciso rediscutir as relações entre
médicos e pacientes à luz das novas tecnologias"

JU - O senhor acha que a literatura tem refletido as mudanças registradas no mundo?
Scliar - É uma pergunta interessante. Nos anos 40 e 50, houve uma explosão daquela literatura chamada de ficção científica. A maior parte das obras eram menores, sem grande valor literário. Mas isso não impede que a influência da ciência na literatura se faça não somente na área da temática, mas também no campo das idéias, desse progresso que representa o avanço científico. Acho que a cultura e a literatura se beneficiaram disso. Há exemplos maiores, como o do cinema, que mudou drasticamente com a tecnologia. Temos filmes de 20, 30 anos que já nos parecem superados.

JU - O senhor tem uma coluna que trata de fatos cotidianos em um jornal de circulação nacional. Como é essa experiência e no que ela difere da literatura?
Scliar - São muitas as diferenças. O jornal tem, de um lado, limitações – de tempo, de espaço, de temática etc. E a gente precisa contemplar isso. Mas, a partir daí, posso exercitar minha imaginação, ou seja, funciona como um desafio. No caso do texto literário, ninguém me cobra. De uma maneira geral, tenho tempo para pensar numa história, não sou motivado por alguma coisa circunstancial. Mas, acontece também que o que se ganha em superfície também se perde em profundidade, e vice-versa. O texto de jornal pode não permitir um mergulho literário tão intenso, mas ele vai pegar um público muito maior. Incorporar público, sobretudo num país como o Brasil, é uma tarefa que deve envolver todo mundo, sobretudo os intelectuais. São duas coisas diferentes, cada qual com suas vantagens e desvantagens, mas acho que ambas se completam.

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