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Mortes, prisões, desaparecimentos, um fantasma e o AI-5

“Amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais.”

(Gilberto Gil)

Em dezembro, rolou um clima de desmoronamento geral. Tudo parecia desabar à minha volta. Meu mundo caía (saudades da Maysa...). Companheiros presos, clandestinos, pessoal de outras organizações partindo para a guerrilha urbana, a qual admirávamos como uma aventura heróica, ao mesmo tempo em que a criticávamos, justamente por ser uma aventura (irresponsável e porralouca, rotulávamos). Hoje, ainda admiro os companheiros que partiram para ações armadas naquela época. Apesar de considerar a guerrilha urbana um ato de desespero, ao qual, entretanto, teria aderido na época, se soubesse que a tão sonhada revolução popular, com ampla e consciente participação da classe trabalhadora, jamais viria a acontecer. “Melhor morrer de pé do que viver ajoelhado”... Porém eu não tinha bola de cristal e, para mim, a guerrilha urbana não passava de uma bela e inconseqüente aventura. (...)


Nos primeiros dias de dezembro de 1968, eu estava no Rio. Fui para lá sem o Ato Institucional nº 5 (AI-5) e voltei com o peso do mesmo nas costas. Aquilo foi, para mim, como uma bomba de misericórdia. Uma bomba que varreria a tudo e a todos. Previ ali o fim de tudo.

Na ida para o Rio, sem ainda existir o malfadado Ato, vinha matutando sobre o nosso futuro. O quadro era difícil. Ibiúna, companheiros partindo para a guerrilha urbana e cutucando a gorilada com a vara curta, e organizações se subdividindo e dando origem a grupos que seriam muito comentados pela imprensa nos anos seguintes. Alguns grupos eu conh
ecia. Sabia que eram formados por poucos e frágeis companheiros, os quais eram descritos como extremamente perigosos pela imprensa controlada pela ditadura. Meia dúzia de bravos, mas inexperientes jovens de classe média, prontos para matar ou morrer, muito mais para morrer.

(...) No dia 13 de dezembro de 1968, eu embarcava na rodoviária do Rio em direção a Belo Horizonte. Como no dia da morte do Edson Luís, sem saber de nada. Não tinha paciência de ler as notícias de uma imprensa censurada que nos tratava como se não existíssemos. Se não existíamos para eles, eu também ignorava os jornais e as revistas, principalmente os que eram totalmente controlados pela direita.

Assim, fui pego de surpresa pelo aparato policial que
encontrei na rodoviária do Rio. Estremeci de cima a baixo quando soldados do Exército entraram no meu ônibus. A militância e a situação de quase clandestinidade não me permitiram tirar documentos, principalmente a Carteira de Identidade. A única coisa que carregava comigo era um velho, roto e despedaçado Certificado de Alistamento no Exército, onde, ainda por cima, eu era refratário: não me apresentara na data certa, pois recusava-me a ir à toca do inimigo. Sabia que seria liberado de servir por causa do pé chato, mas tinha medo de me apresentar e ser preso, por isso ia adiando a minha apresentação e aquele documento era o único que carregava comigo.

Naquele ônibus, no dia 13 de dezembro de 1968, parecia óbvio para mim que, quando eu
apresentasse aquele bagaço que eu chamava de documento, eu seria preso. Mas resolvi arriscar. Quem sabe, não aceitariam meu certificado? Afinal, se o negócio era identificar a pessoa...

Dei sorte. O soldado que olhou o documento impressionou-se com o brasão e com o nome “Exército brasileiro” e balbuciou:

– Ah... É do Exército!...Tudo ok!

Respirei aliviado quando ele me devolveu o documento e foi importunar outro passageiro. Por incrível que pareça, naquele momento, o Exército brasileiro me salvara do Exército brasileiro...

Só no dia seguinte, fui saber do porquê de todo aquele aparato. Revoltada com o fato de a Câmara ter negado licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves por “ofensas às Forças Armadas”, a ditadura decretara o AI-5 e fechara o Congresso Nacional. A partir daí, policiais e militares intensificariam a maior “caça às bruxas” da História do Brasil.


(Trecho do livro NOS IDOS DE 68)

Pois é. Quarenta anos se passaram. E a História, inexoravelmente, seguiu seu curso. Muita coisa aconteceu e mudou nas últimas décadas. E hoje, algumas perguntas martelam nossas cabeças e permanecem sem respostas satisfatórias: mudou o páis ou mudaram apenas os atores de uma tragédia onde a violência policial, a tortura, o autoritarismo e a exclusão do povo enquanto agente do processo histórico são os ingredientes principais? O “admirável mundo novo” em que vivemos, com suas “maravilhas da tecnologia”, não passa de um novo cenário de uma peça antiga que já vimos e revimos uma infinidade de vezes?

Não há o que comemorar nos quarenta anos do AI-5. Mas há muito que refletir... Pense, fale e escreva sobre essa página da nossa História. Agora, a Ditadura acabou e você pode expressar livremente tudo o que pensa. Ou não?


Enviada por: Luiz Lyrio

http://www.lyr.myblog.com.br/

e-mail: revistalo@yahoo.com.br

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