"Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer”, dizia João Ubaldo Ribeiro



Os postes de carne e osso

Por Carlos Lúcio Gontijo

Ter escolhas a fazer significa sempre sorte e privilégio, pois muitas são as pessoas que não dispõem sequer de simples horizonte ou caminho para seguir. Aposentado dentro do jornalismo da grande imprensa e, após ter passado por grave problema no o
lho esquerdo (buraco na mácula) ainda em recuperação, estou bastante propício a ficar apenas com as tarefas das quais não tenho como fugir, a exemplo da administração de meu site e da lavra de meus livros (dois novos títulos estão sendo preparados para o ano de 2015)

 Sexagenário, acredito ser hora de eu parar de levar luz para pessoas que se comportam como se fossem uma espécie de poste em carne e osso, cujas luzes apenas acendem se houver algum fornecedor de energia: são as sanguessugas sociais. Além do mais, não sou nem pretendo ser a palmatória do mundo, cuja saída reside na prática efetiva do pensamento coletivo, com cada ser humano se responsabilizando pela parte que lhe cabe em meio ao todo.

 Minha experiência de vida me leva a não ter esperança em mudanças que venham de cima para baixo, uma vez que quem está no comando não quer saber de agir em prol da construção de uma sociedade menos desigual e mais justa, que somente pode ser viabilizada através da cessão de espaços pelo grupo social composto pelos abastados, que agem em sentido contrário. Ou seja, o que pretendem, por intermédio do voto democrático que unge ditadores, é ampliar ainda mais o quadro de desigualdades sociais e, se possível, anular todas as possibilidades de ascensão dos mais pobres, a fim de não conturbar a prosperidade dos oásis de fartura, que é tão maior quanto menor for o número de privilegiados.

O saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro dizia que “quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer”; e eu tenho procurado, bem ou mal, grafar no papel a arte da palavra escrita, uma leve sombra de dom que tisna a minha alma. Confesso que, para continuar minha difícil missão em país tão avesso aos livros, a solução é ir me desfazendo de alguns fardos, segundo me exige a metamorfose da existência. A própria idade me obriga a concentrar tão-somente em focos de importância precípua, como é o caso da literatura, com a qual entrei em contato ainda muito cedo, bem antes de lançar meu primeiro livro em 1977.

 Prova maior de que necessito aproveitar melhor o tempo que me resta, fechando-me em torno dos livros que pretendo editar no ano que vem e, também, no romance “Memórias de horizonte” (ainda nos escaninhos de minha imaginação), é a constatação de que de uns anos para cá, a partir mais ou menos da metade da produção de meus livros (16 obras), bateu-me certo desânimo em procurar patrocinadores e tudo ficou em torno de mim e do meu pai José Carlos Gontijo (o “paitrocinador”), que comemorou 90 anos no dia 19 de julho de 2014. Tudo é uma questão de lógica: quanto menor o apoio, maior deve ser o poder de concentração e determinação. E para alcançar essa meta, a busca é desfazer de bagagens e compromissos que contribuam para a minha lentidão e me desviem da atividade de escriba menor, da qual extraio toda a luz que ilumina minha caminhada, onde a divina ideia filosófica é procurar abrigo definitivo na grandeza das coisas pequenas.

Carlos Lúcio Gontijo Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

Esta semana se comemora o dia do escritor no Brasil - 25 de julho, quando o Instituto Imersão Latina estará realizando a Mostra Disseminação - de cinema e vídeos experimentais, com performances,  no Memorial Carlos Drummond de Andrade.

Confira a programação em: http://fccda.mg.gov.br/40festival

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