Por Larissa Saud

(Textos e fotos)
Dona Zilá em sua casa (fotos: Larissa Saud)
Dona Zilá em sua casa (fotos: Larissa Saud)
Todos os dias Zila acordava cedo, fazia o café ralo e separava as bolachas de água e sal entre os dez filhos. Depois pegava o pequeno barco e atravessava até a ilha da frente para esperar o transporte da Prefeitura de Senador José Porfírio, que levava os filhos a escola, localizada na Ilha da Ressaca. Apesar das seis viagens diárias, ela não reclamava. Os filhos estavam estudando. Nos intervalos entre as idas e vindas ela preparava com sal e colocava na brasa o peixe pescado por Oswaldo, seu marido.
A família é a única moradora da Ilha do Murici, que leva esse nome por ser rodeada de árvores que dão nome ao fruto áspero e azedo. A rotina de todos era bastante definida até o final de fevereiro, quando o nível das águas do Xingu subiu, alagou toda a casa e fez Zila, Oswaldo e os filhos passarem por quase duas semanas de desespero na luta para salvar o pouco que tinham.
Eles procuraram vários amigos e conhecidos que poderiam fornecer uma voadeira, mas não tinham 360 reais para os 90 litros de gasolina necessários para resgatá-los. Da horta cheia de pepino, abóbora, quiabo, pimentinha e macaxeira restaram apenas as estacas. “Não podíamos fazer quase nada. Só colocar as camas uma em cima da outra e esperar”, conta Zila.
Seu Oswaldo prepara peixes na beira do rio
Seu Oswaldo prepara peixes na beira do rio
Ao longo de quase duas semanas, Zila Tavares Kaya procurou a Funai, a defesa Civil e Norte Energia, pois a ilha está a 30 minutos abaixo do principal canteiro de Belo Monte e será diretamente impactada pela obra. Um funcionário da Norte Energia visitou a família e disse que nada poderia fazer. A pescadora e indígena diz que é normal o rio subir nesta época do ano, mas acredita que a construção da hidrelétrica está desestabilizando o nível do Xingu: “Isso aconteceu devido o barramento lá da Norte Energia. Desde 2009 a gente morava lá e isso nunca tinha acontecido. Os vizinhos das outras ilhas dizem que isso nunca tinha acontecido também e agora quase tudo tá indo para o fundo”.
A Ilha do Murici começou a alagar desde 27/02, quando foi noticiado que uma ensecadeira do Pimental teria rompido. O assessor da Norte Energia, Anderson Araújo, afirmou que era apenas um boato. “Tudo sobre Belo Monte vira uma coisa gigante, um bafafá”.
A família de Zila conseguiu chegar em Altamira apenas na sexta-feira (7), onde passou mais um dia na busca de recursos para levar a pequena mudança, com algumas camas, redes e telhas até Vitória do Xingu. Quando perguntada sobre o que gostaria de ganhar pelo Dia Internacional das Mulheres, Zila marejou os olhos de lágrimas: “Quero apenas chegar em Vitória e sair desse sufoco”. Seu pedido foi aceito. Em menos de três horas Zila se encontrava com a família em Vitória do Xingu.
Familia de Zila chega em Altamira com o pouco que tem
Familia de Zila chega em Altamira com o pouco que tem
 Assim como Zila, outras tantas mulheres altamirenses irão passar o mês das mulheres com as casas embaixo d’água, na luta para que seus sonhos, levados por Belo Monte, voltem a se realizar.
Matéria publicada em 10 de março de 2014 no blog http://www.xinguvivo.org.br

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