"Você é índio de verdade?"

Por Francisco Vorcaro MachadoComitê Mineiro de Apoio aos Povos Indígenas
Todos os cidadãos brasileiros conseguem reconhecer o massacre e a exploração que os povos indígenas sofreram ao longo da história brasileira. Contudo, é muito mais difícil abrir os olhos para a crueldade com que são tratados hoje em dia. O racismo e o preconceito podem vir de onde menos se espera, e hoje os indígenas são vitimas desse comportamento.
É Necessário combater um certo tipo de pensamento, que quer fazer com que o indígena se enquadre em um esteriótipo de aparência e cultura. A cultura é viva, e está em movimento. O Indígena não é obrigado a viver como se vivia há 5 séculos atrás, da mesma forma que o branco também não precisa viver como se vivia na época das navegações para continuar sendo branco.
Então qual é o motivo desse racismo descarado? Perguntas como "você é índio de verdade?" Demonstram o quanto o povo brasileiro sofre por falta de conhecimento e respeito com os povos originários.
Infelizmente esse racismo é muito real, e mais uma vez denúncias precisam ser realizadas.
No domingo do dia 4 de maio de 2014, Indígenas da Etnia Pataxó, provenientes das aldeias de Barra Velha e Coroa Vermelha, no sul da Bahia, estavam vendendo seus artesanatos em frente aos portões do Parque Municipal.
Quem anda muito pelo centro já se acostumou com a presença dos Pataxós, que vem em grupos vender o artesanato e depois voltar para as aldeias com esse recurso.
No final do expediente, um dos indígenas, que por motivos de segurança não iremos divulgar o nome, queria utilizar o banheiro do parque para urinar. O banheiro estava longe, e como ele esta acostumado a viver em ambiente mais natural e livre, ele urinou em uma das arvores dentro do parque.
Um guarda municipal chamou a atenção dele, e tudo poderia ter se encerrado com uma simples advertência verbal, contudo mais uma vez a truculência das nossas forças de segurança acabaram piorando a situação.
Primeiramente o guardo o chamou de Filha da Puta, ordenou que coloca-se as mãos pra trás. O Indígena, que estava já urinando disse que precisava terminar.
O guarda então o chamou de índio, e disse que ele era inferior. Foi pra cima do jovem, que pegou seu arco e flecha, não para atirar, mas por reação. Quando fez isso um outro guarda que estava atrás dele deu um soco, que acertou a parte lateral do rosto. Esse guarda então o segurou em um mata leão, quase o sufocando, e o arrastando por mais de 10 metros, sem respirar direito e sangrando muito pela boca.
O primo desse indígena, que tem apenas 16 anos, foi ao seu socorro, tentar entender o que estava ocorrendo. Então o guarda torceu o braço do menor de idade.
Nisso todos os indígenas que estavam lá foram pra perto ver o que estava ocorrendo, apenas um ficou pra trás tomando conta dos artesanatos, e esperando a van que os iria buscar. Foi quando outros guardas começaram a provocar esse indígena que nem sequer tinha saído de perto dos artesanatos, chamando-o de frangote, e tentando provoca-lo a briga por meio de zombarias e desrespeito.
Na parte de dentro do parque, o indígena que foi agredido ainda sangrava, quando o guarda novamente ordenou que ele, já rendido, colocasse a mão para trás pra ser algemado. Esse disse que só poderia ser preso pela Polícia Federal. Novamente o guarda com orgulho ferido mandou-o calar a boca, o chamou de inferior, e disse que quem mandava no parque era ele.
Arrastou-o para a guarita, e lá torturou o indígena psicologicamente, passando sua arme de choque perto dele e perguntando se já havia sido eletrocutado antes.
Do lado de fora, os outros guardas desrespeitavam os outros indígenas. Um guarda por exemplo, obrigou um dos indígenas a sacar seu arco e flecha e atirar contra uma arvore. Após isso disse que o arco era uma porcaria, que ele não era índio de verdade.
O guarda ainda descriminou e desrespeitou suas vestes tradicionais, e disse que eles também deveriam "colocar suas mulheres para desfilar peladas pelas ruas"
O indígena que foi agredido fisicamente ainda estava tendo seus direitos violados quando o guarda municipal deu a sua declaração final de falta de prepara, e total desrespeito pelas leis brasileiras que jurou defender, afirmando para o indígena "aqui eu sou guarda, mas você não me conhece sem farda, e se eu te pegar la fora você vai ver"
Uma semana após o ocorrido, ele afirmava que seu pescoço ainda doía muito, e que se tivesse sido sufocado e arrastado por mais alguns metros teria desmaiado por falta de ar.
Os indígenas também afirmam que a guarda municipal os provoca todos os dia, e que eles não podem mais andar sozinhos pelo parque, pois temem perseguições.
Esse não é um caso isolado, e inúmeros são os casos de preconceito, por exemplo ao utilizar o transporte publico vestido com seus trajes tradicionais.
Esperamos através dessas denúncias, alertar a sociedade civil, movimentos sociais e autoridades publicas sobre o tipo de tratamento que o indígena vem recebendo em Belo Horizonte.
O Ministério Público Federal, quando alertado sobre esse ocorrido, recomendou ao Secretário Municipal de Segurança Urbana e Patrimonial e ao Comandante da Guarda Municipal a adoção de medidas imediatas para impedir violações dos direitos dos povos indígenas que visitam ou que moram na capital.
Segue o documento na integra;

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