Um Brasil de não-leitores



Por Cássio Pantaleoni*

A renomada revista britânica “The Economist” recentemente publicou um artigo sob o título “Um país de não-leitores”, em aberta referência ao quase inexistente hábito da leitura no Brasil. O artigo apresenta dados alarmantes. A revista destaca que 25% dos brasileiros com 15 anos ou mais são analfabetos funcionais. Se considerarmos os adultos alfabetizados, apenas 33% leem livros. A informação mais contundente, entretanto, refere a média de livros lidos no Brasil: apenas 1,8 livros.

Vale pensar. Ocupamos o 27º lugar em hábito de leitura. Se olharmos para os nossos vizinhos da América Latina, encontraremos a Argentina em 18o. lugar. O que ocorre no Brasil quando se trata da leitura?

Há os apressados que afirmam que o problema da leitura está no preço dos livros. Será? Enquanto editor, com o cacoete da minha formação em filosofia, preciso repensar o argumento: o problema do preço dos livros não estaria vinculado a priori à falta de leitores que impede maiores tiragens, obrigando as editoras a trabalhar com um preço médio muito mais alto? Mera inversão de perspectivas. Acho que o problema está mais “no fundo”.

Basta uma rápida pesquisa e já se descobre que, enquanto no Brasil a primeira escola com vocação para aquilo que entendemos como “Currículo Universitário”foi fundada apenas em 1901, a Universidade Nacional de São Marcos, no Peru, foi fundada em 1551. São 450 anos de atraso na formação intelectual do Brasil. Podemos afirmar, sem hesitação, que historicamente a educação formal nunca foi uma prioridade para o governo brasileiro. Mas qual a relação disto com a leitura?

Ora, o que significa ler? Por que lemos? E antes de tudo: por que escrevemos? Cabe reformular. Por que temos a necessidade de documentar qualquer coisa? Eu gosto de uma resposta simples: sem as anotações dos pensadores que nos precederam estaríamos sempre começando do zero. Mas e quanto às obras de ficção, a poesia, e outros gêneros não científicos? Ora, onde encontraríamos inspiração para nossas ocupações humanas se não pudéssemos ouvir (ou ler) dos nossos antepassados qualquer coisa? Tudo o que falamos, tudo o que tratamos, tudo o que discutimos, o que sonhamos, o que almejamos, o que nos toca e nos inspira, está assentado sobre toneladas de documentos históricos (estudos científicos, poesia, filosofia, romances etc) que formaram as nossas opiniões sobre o mundo. Não tomar contato com os escritos relevantes da história é começar do zero (talvez daí venha aquela expressão jovem que refere gente menos articulada: “o cara é um zero”). As universidades cumprem esse papel de resgate constante dos escritos históricos, das pesquisas predecessoras, dos ensaios de grandes pensadores, oferecendo o ambiente propício para a articulação do pensamento. As melhores universidades mundiais são grandes ágoras para o debate construtivo, onde as ideias são articuladas constantemente, contribuindo para a formação do indivíduo e preparando-o para a compreensão das coisas do mundo.

Contudo, ainda precisamos responder – o que realmente significa ler? Quando podemos afirmar que a leitura acontece de fato? Acaso ler um texto significa apenas ser capaz de reproduzi-lo? Evidentemente, não se trata só disso. Reconsidero.

Eu costumo pensar na leitura como o fenômeno que se dá enquanto reescrevemos no pensamento o texto que lemos. A leitura não é algo que coloca um leitor diante de um texto, para que ele reúna os signos de modo a compreender as palavras, mas é o acontecimento de uma articulação de ideias entre texto e leitor, que permite a reescrita do próprio pensamento na alma. Essa reescrita é também uma reinscrição do nosso próprio “eu naquilo que compreende a monumentalidade do mundo vivido, a obra da humanidade. Nós só nos tornamos humanos quando, diante da obra monumental do mundo, estamos de caso com a nossa própria obra, ou seja, a construção de um “eu” no qual as possibilidades estão sempre revigoradas. Esquecer a obra do “eu” é abandonar-se, abrir mão de nossas possibilidades mais humanas. Abrir mão da obra do “eu” é remeter-se à simples animalidade, como um cachorro que abana o rabo por comida. Ler é investir na nossa monumentalidade, na nossa grandeza. Ler é escrever-se.

A leitura acontece quando, diante de um texto, somos capazes de articular suas ideias, promover associações com outras ideias que não estão naquele texto propriamente, conectá-las e sintetizá-las. A leitura acontece quando a tese do texto encontra uma antítese no leitor e a partir daí se reinaugura o sentido do texto. Para tanto, só existe um instrumento – o pensamento. Precisamos aprender a pensar enquanto aprendemos a ler. Precisamos aprender a pensar cada vez mais.

Os dados oferecidos no artigo da “The Economist” sugerem que nós, brasileiros, estamos abrindo mão de nossa própria obra, de nosso monumento enquanto povo, enquanto país. Parece que estamos dispostos a ser meros expectadores da obra dos outros. É como se estivéssemos cansados de pensar; como se pensar fosse algo “fora de moda”. Vejo isso todos os dias. Sempre que alguém tenta o aprofundamento de algum tema, dá-se a ironia. O brasileiro é tão descuidado com o pensamento que crê que a linguagem mais rica é rebuscamento, é excesso. E ironiza isso. E é bom lembrar: só ironiza quem não alcança a importância da riqueza dos sentidos.

É necessário reinaugurar o processo de formação de leitores, mas, antes, precisamos ensinar a formar leitores, precisamos apoiar os professores, os pais, pois eles também estão incluídos no contexto geral do problema da leitura. O caminho é o pensamento. É imperativo que as escolas invistam tempo para ensinar os nossos jovens a pensar, ao invés de simplesmente oferecer conteúdo. Conteúdo não forma. O que forma é a forma com a qual lidamos com o conteúdo. Não adianta dar um livro para o aluno e esperar que aconteça o “milagre da leitura”. Antes, faz-se necessário inspirá-los a se colocar em obra de si mesmos. E isso só se faz possível se os ensinarmos a pensar.

 Cássio Pantaleoni é Mestre em Filosofia pela PUCRS no campo de especialização da Fenomenologia e da Hermenêutica. Escritor, finalista da edição de 2011 da Categoria Contos da AGES, finalista do concurso de Contos Machado de Assis do SESC-DF em 2011, Segundo Lugar no 21o. Concurso de Contos Paulo Leminski em 2010, fundador da editora 8INVERSO e profissional da área de Tecnologia da Informação. Autor de "Os Despertos" (2000), "Ninguém disse que era assim" (2002), "Desmascarando a incompetência" (2005), "Histórias para quem gosta de contar histórias" (2010) e "A Sede das Pedras" (2012).

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