Última carta de 2013


Aline Cantia e Chicó do Céu
Por Aline Cântia*

Final de ano sempre me remeteu às longas filas dos Correios, envelopes coloridos, procuras pelo cartão mais bonito, capricho na letra e cuidado com as dobras, colas e endereços. 

De um tempo pra cá, este cenário mudou. Correio virou sinônimo de Edital, seja antes ou depois do projeto aprovado. E os envelopes com cheiro de tutti-fruti se transformaram em pardos ou amarelos, foscos, amassados mesmo que comprados de última hora. 

Poderia passar muitas horas escrevendo sobre as tantas experiências com Correio só neste ano de 2013. Mas não. Nesta época, em que a gente fica mais saudosista, resolvi escrever uma carta a todos que mereciam um destes envelopes cheios de flores e desenhos. Ainda que com receio de deixar alguém de lado (e aqui não dá pra botar culpa no carteiro), vou tentar contar um pouco deste 2013 de histórias, canções e lutas. 

Não consigo me lembrar onde passei o último dia de 2012 (e eu passei o dia todo tentando), mas me recordo que 2013 chegou com uma boa notícia. Nossa viagem pra Valparaíso, no Chile, para participar do Festival de Cantautores: Concierto para Devenir. Na trupe: Chicó Do CéuTéo Nicácio SobrinhoRaphael Sales e eu. Três amigos que unem talento e humanidade. Não tem nada melhor do que viajar com quem a gente gosta tanto assim... e este Encontro foi pra mim, um divisor de águas. Obrigada, Gazel Zayad pelo melhor sorriso quando abriu aquela porta do Espaço Santa Ana, antiga Capela, agora um espaço cultural devolvido à comunidade chilena. Ali pude começar a compreender este formigamento que sinto toda vez que viajo pela América Latina. Ali entendi do silêncio e do som com o mega talentoso Alejandro Sicardi, com a alegria deMaru Maru, Daniel Daniel Alfredo. Com as caminhadas a pé com o Jesús Otrís Gallardo. Com os segredos compartilhados com Sandrita . Com o amor e paciência aprendidos com Emanuel Bonaccorso. Com a voz umbilical de Paula Ferrez. 
Voltei pra Belo Horizonte carregando o sentimento do mundo em mim. 

Em março fui, sem nem imaginar, percorrer caminhos do outro lado do mar: Tunísia. Uma experiência que nem dá pra dividir de tão interna. Mas que me trouxe outros encontros, como oNilton PensativoBruno FranquesCamila Mello e Diana Tircomnicu, divididos com o Chicó (Sempre), Júlio e o mestre Nelson Guarani Kaiowa. Com o apoio da Brenda Marques Pena, da Rita Freire, de todas as parceiras do Imersão Latina e da Ciranda. 


Para então chegar à Itália, da minha amada hermana Aurora Majnoni... tantos amigos que me emprestou por lá. 

E abril veio com novos encontros: os meninos do laboratório filmes. que se tornaram nossos fiéis guardiões de memórias, imagens e sonhos. E chegamos à Itaguara, pelo Premio São Francisco, onde tivemos um ano de idas e vidas cheias de trocas e aprendizados. Sempre acompanhados pelo Camilo Lélis e pela Elisângela que provam, dia a dia, como tem gente boa neste interior do Brasil.

Brasil reconhecido a partir de maio, com o projeto Histórias de Vida, apoiado pelo Fundo Estadual de Cultura de MG, na região da Zona da Mata. Parceria com o CTA de Viçosa... tradição, cultura e agroecologia nas mãos e vozes cuidadosas do Glauco RegisMarcioFabricio Vassalli , Irene CardosoSebastião FarinhadaWiller BarbosaJaqueline CardosoLeandro LopesPJ Amorim,Amauri... e tanta gente que conhecemos nestas idas e vidas a Acaiaca, Araponga, Espera Feliz e a minha terra natal Viçosa. Cafés na casa da Maria Alice, prosas com todo mundo...
Até o Luanzinho e a Maryanna participaram destas empreitadas.

Junho e Julho comemoramos a chegada da Tatiane Soares na trupe, com uma energia incomparável pra cronogramas e afins. E a certeza de que trabalhar com os amigos é a melhor coisa que tem. Por isso, os projetos iam caminhando com a presença fundamental de Verlaine Prado e da Bianca M Melo (que além de amiga, assessora é também comadre). 

Vamos colhendo os bons frutos da caminhada e em julho participamos com o pessoal dos Pontos de Memória de um encontro importante nas terras de Natal. E veio o projeto de continuidade do Ponto de Memória do Pompéu, com os artistas Silas da FonsecaIsabel, Zé Alves,Borrachalioteca de Sabará... E que terá o reinício oficial em 2014. E começamos a parceria com aGeovana Jardim, com um novo Ponto em outras terras de Minas. 

Produzimos o trabalho Vandalismo, com o Batucanto, Laboratório e Larissa Alberti, um dos projetos que tive mais orgulho de participar - pelas companhias e pela criação. Nos apresentamos no Música e Poesia e na Virada Cultural de BH. 

Agosto vieram os encontros mais duradouros com os queridos e talentosos meninos da Casa Azul... Leandro CésarThiago BrazGustavo GustavitoIrene Bertachini e as parcerias em andamento e em projetos... divididos entre cafés e histórias. O queijo como elo de sabedorias com a Lívia Pinheiro (e de quebra a Júnia Cruz). 

Setembro vem uma infinidade de viagens entre Minas e o Rio quando finalmente começam as aulas na UFF... e que duraram semanalmente até o meio de dezembro. Uma nova experiência de transeunte. Momento que me presentou amigos-educadores desde o primeiro dia de aula:Tatiana LeiteWesley MoraesErika Kika e Gilmar Oliveira. Este quarteto que merece um texto só pra eles. E ainda, sem palavras pra agradecer a Inês Gouveia e a Mirela Araujo pela generosidade com que compartilham mais do que um lindo quintal e uma casa de muro baixo, mas uma vida inteira de abraços e prosas. E eu nem pensava, mas também este Rio me trouxe pra mais perto os queridos Sara SchuabbFelipe SilvaMario De Souza Chagas e Wélcio Toledo (e Brasilia também), com quem compartilho experiências e desejos por uma politica pública de verdade para a memória social no país.

Setembro ainda teve o Festival de Narração Oral, no Paraguai. Agradecimentos sem fim à Laura FerreiraArtesanas de la PalabraAlejandra Diaz Danse... por aumentarem minha fé (no sentido mais amplo da palavra) na resistência. 

E veio o Espaço Comum Luiz Estrela que me reaproximou de tanta gente, me fez relembrar de tantas importâncias, me inspirou textos e encontros. 

Outubro ainda fizemos uma turnê pelo interior de São Paulo, pelo Sesc. Participamos de projetos nos Centros Culturais. Tivemos a oportunidade de passar um dia inteiro trocando experiencias e aprendendo com os bibliotecários do interior de Minas, na Biblioteca Luiz de Bessa (obrigadaMarina Nogueira). 

Em novembro saiu o resultado do Prêmio Culturas Populares - 100 Anos de Mazzaropi e o Ponto de Memória do Pompéu foi um dos premiados. Em 2014 tem CD novo rodando por aí. 

Nestes entremeados de final de ano, ainda encontrei um moço que tinha chegado do Sertão, oMakely Ka e que, por sorte, pousou pelo Santa Tereza. Já são tantas histórias que nem parece que faz tão pouco tempo. E com ele, os indícios de um novo projeto de memória pelos lados das Gerais, com a presença fundamental da Damiana Campos (não vejo a hora de chegar aí).

Ainda em dezembro participamos do projeto Casa Aberta, aprovada pela Belotur. Descontorno (obrigada Fabíola Farias! Estamos juntas). Apresentação no Braile, organizado pela Cleide Fernandes 
Essas duas tão presentes nas conversas sobre literatura, junto com o Luiz Fernando Campos - uma promessa de parceria pra 2014. 

E finalizamos o CD Contos de Lá nos Cantos de Cá que chegará com a carta de boas-vindas de Janeiro.

Ufa! Devo ter me esquecido de um monte de coisas e de gente... mas o correio está sempre aberto e outras cartas virão. E, desejo que elas cheguem de vários lugares do Brasil e do mundo. Que elas tragam notícias do sertão, das ocupações, dos palcos, das manifestações, das eleições... que elas comuniquem que não teve copa. E que novos encontros se façam. E que os próximos sejam no sertão.

* Aline Cântia é conselheira do Imersão Latina e coordenadora do Ponto de Memória do Pompéu

Neste mês de dezembro publicaremos neste blog cartões e mensagens de nossos amigos, parceiros, artistas que integram a rede do Imersão Latina.

Este é a forma de compartilharmos um pouco do que recebemos para um 2014 cheio de realizações!

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